Os números não são apenas estatísticas. Eles carregam nomes, histórias interrompidas, famílias marcadas pelo medo e comunidades abaladas pelo silêncio. Em apenas um mês, os casos de violência contra a mulher na região do Planalto Norte saltaram 137,5%, passando de oito registros em janeiro para 20 em fevereiro — isso em um mês com apenas 28 dias.
Um levantamento, com base em ocorrências da Polícia Militar e da Polícia Civil, revela um início de 2026 preocupante: ao menos 35 casos envolvendo descumprimento de medidas protetivas, ameaças, agressões, tentativas de feminicídio e dois feminicídios consumados.
Fevereiro foi especialmente trágico. Duas mulheres perderam a vida. Outras cinco sobreviveram a tentativas de feminicídio. Em muitos casos, os crimes ocorreram dentro de casa, diante de filhos, familiares ou vizinhos. A violência não escolheu horário: começou na virada do ano e seguiu madrugada adentro, em finais de semana e dias comuns.
O padrão se repete. Agressões após consumo de álcool ou drogas. Uso de facas, facões e armas de fogo. Descumprimento de medidas protetivas. Tentativas de controle, ciúmes e ameaças que evoluem para violência física. Em vários episódios, mulheres só conseguiram escapar ao buscar ajuda de vizinhos ou acionar a polícia.
O dado mais alarmante talvez não seja apenas o aumento percentual, mas a constância. Março mal começou e seis novos casos foram registrados em menos de 24 horas. A escalada demonstra que não se trata de situações isoladas, mas de um problema estrutural que atravessa municípios como Canoinhas, Mafra, Papanduva, Porto União, Rio Negrinho e Bela Vista do Toldo.
Por trás de cada ocorrência existe uma mulher que, em algum momento, já havia convivido com sinais de violência. Muitas vezes, o ciclo começa com ofensas verbais, evolui para ameaças e culmina em agressões físicas. Quando não interrompido, pode terminar em feminicídio.
A sucessão de casos também revela outro aspecto preocupante: a violência doméstica não atinge apenas a vítima direta. Filhos presenciam agressões, familiares vivem sob tensão constante e a rede pública de saúde e segurança é pressionada a responder a situações cada vez mais graves.
O aumento de 135% não pode ser tratado apenas como um dado estatístico. Ele exige reflexão coletiva. Exige fortalecimento das redes de proteção, políticas públicas eficazes, responsabilização dos agressores e, principalmente, conscientização social.
A violência contra a mulher não é um problema privado. É uma questão pública, social e urgente. Cada número representa uma vida que precisa ser protegida antes que se torne apenas mais um registro em relatórios policiais.
Por Demais FM / Portal Jmais
