Indústria moveleira sofre impacto direto das tarifas de 50% impostas pelos EUA sobre exportações de madeira e móveis
O Planalto Norte de Santa Catarina enfrenta sua pior crise no mercado de trabalho formal em 2024. Pelo segundo mês consecutivo, a região apresentou saldo negativo expressivo: 715 vagas com carteira assinada foram eliminadas em setembro, segundo dados do Ministério do Trabalho divulgados nesta sexta-feira (31). O resultado se soma às 705 vagas perdidas em agosto, totalizando 1.420 demissões no bimestre.
A principal causa da sangria de empregos é o chamado “tarifaço” norte-americano: a imposição de tarifas de 50% sobre produtos de exportação brasileiros, especialmente madeira e móveis, que tornou os produtos da região menos competitivos no mercado internacional.
São Bento do Sul lidera perdas com fechamento de fábricas
O maior polo moveleiro de Santa Catarina voltou a ser o epicentro da crise. São Bento do Sul registrou o fechamento de pelo menos duas fábricas e redução drástica de postos em várias outras empresas, resultando na eliminação de 259 empregos formais apenas em setembro. Somadas às 41 vagas perdidas em agosto, a cidade acumula 300 demissões no período.
O efeito dominó atingiu em cheio os municípios vizinhos que também dependem das exportações para os Estados Unidos. Campo Alegre perdeu 168 vagas em setembro (266 no acumulado do bimestre), enquanto Rio Negrinho viu 85 postos serem extintos (132 no total de agosto e setembro).
Mafra reduz impacto após fechamento de fábrica alemã
Em agosto, Mafra havia liderado as perdas regionais com 268 demissões, impulsionadas principalmente pelo fechamento da fábrica alemã Kromberg & Schubert. Em setembro, o município conseguiu estabilizar a situação, registrando perda de apenas seis vagas. Ainda assim, o acumulado do bimestre é de 274 empregos perdidos.
Canoinhas e região menos dependente sofrem menos
Canoinhas, cuja economia é mais diversificada e menos dependente das exportações, teve perda de 46 vagas em setembro, ante 26 em agosto, totalizando 72 postos eliminados no período. O resultado, embora negativo, foi proporcionalmente menor que o das cidades do polo moveleiro.
Três Barras, que abriga indústrias de compensados como F Comp e Brasnile, conseguiu reduzir o impacto em setembro, perdendo 19 vagas após ter eliminado 80 postos em agosto.
Papanduva, por outro lado, viu a situação piorar drasticamente: passou de nove desligamentos em agosto para 60 em setembro, reflexo direto do encarecimento das exportações de portas, um dos principais produtos locais.
Apenas Major Vieira escapa da crise
Entre os 13 municípios do Planalto Norte analisados, apenas Major Vieira conseguiu apresentar saldo positivo no bimestre, com criação de 41 vagas (7 em agosto e 34 em setembro). Porto União conseguiu equilibrar as contas em setembro (+3), mas ainda acumula perda de 90 postos no bimestre.
Santa Catarina vai na contramão, mas indústria patina
Enquanto o Planalto Norte sangra empregos, Santa Catarina como um todo registrou saldo positivo de 11,4 mil vagas em setembro. O resultado foi puxado principalmente pelo setor de serviços (+7,6 mil), comércio (+2,3 mil) e agropecuária (+639 vagas).
A indústria estadual, apesar das perdas concentradas no Norte, fechou setembro com saldo positivo de 809 postos. No entanto, o presidente da Federação das Indústrias de Santa Catarina (Fiesc), Gilberto Seleme, alertou que o desempenho industrial ainda sofre com a alta taxa de juros e o impacto devastador do tarifaço norte-americano.
A economista Camila Morais, do Observatório Fiesc, destacou que o setor de madeira e móveis perdeu quase mil empregos em todo o Estado apenas em setembro. Em contraste, os segmentos de alimentos, bebidas e confecções apresentaram crescimento.
De janeiro a setembro de 2024, Santa Catarina acumulou 95 mil novas vagas formais, sendo 42,5 mil na indústria e 43,8 mil em serviços. Os números estaduais, no entanto, escondem a dramática realidade regional do Planalto Norte, onde comunidades inteiras dependem da indústria moveleira para sua sobrevivência econômica.
Perspectivas incertas para o final do ano
Com o mercado norte-americano ainda sob efeito das tarifas protecionistas e sem sinais de reversão da política comercial, empresários da região temem que os meses finais de 2024 possam trazer novas ondas de demissões. A tradicional época de festas de fim de ano, que costuma aquecer o setor moveleiro, pode não ser suficiente para compensar a perda de competitividade no principal mercado consumidor da produção local.

Por: Demais FM
Informações do Ministério do Trabalho e Observatório Fiesc
