Impacto direto no campo: produtores apreensivos com nova taxação
A confirmação, pelos Estados Unidos, da aplicação de uma tarifa de 50% sobre as importações de tabaco brasileiro já preocupa diretamente produtores e lideranças do setor, especialmente nas regiões do Planalto Norte catarinense e sul do Paraná — as maiores áreas produtoras do país.
O país norte-americano é o terceiro maior comprador do tabaco brasileiro, respondendo por cerca de 9% das exportações, tanto em volume quanto em valor. Apenas entre janeiro e junho de 2025, o Brasil exportou 19 mil toneladas de tabaco para os EUA, gerando US$ 129 milhões em receita. No acumulado de 2024, foram 39,8 mil toneladas exportadas e US$ 255 milhões em vendas externas.
O setor teme que, com a nova tarifa, as exportações para o mercado americano sejam reduzidas drasticamente.
Itaiópolis: a potência do tabaco em Santa Catarina
O município de Itaiópolis se destaca como o maior produtor de tabaco do estado de Santa Catarina. Na safra 2023/2024, a cidade registrou a impressionante marca de 12.715,9 toneladas produzidas, com a participação direta de 2.938 famílias no cultivo.
O faturamento da produção local ultrapassou R$ 237,8 milhões, garantindo a Itaiópolis a liderança no ranking regional. Os números revelam o peso econômico da cultura do tabaco, especialmente para a agricultura familiar e para os pequenos municípios do Planalto Norte.
Em Mafra, outras 1.500 famílias estão envolvidas na produção, movimentando anualmente cerca de R$ 128 milhões. No total, a região conta com mais de 15 mil produtores, com uma renda superior a R$ 1 bilhão por ano.
Setor tenta realocar produção, mas cenário é incerto
Segundo Valmor Thesing, presidente do Sindicato Interestadual da Indústria do Tabaco (SindiTabaco), a expectativa era de que o governo dos Estados Unidos prorrogasse o prazo ou negociasse, o que não aconteceu. “A competitividade do tabaco brasileiro no mercado americano está comprometida, e isso pode gerar queda brusca nos volumes exportados”, afirmou.
Apesar do cenário desafiador, Thesing garante que não há previsão de demissões. Ele afirma que o tabaco contratado via Sistema Integrado de Produção de Tabaco (SIPT) será adquirido normalmente, respeitando os contratos firmados com os produtores. “Essa é uma garantia que tranquiliza as famílias envolvidas na lavoura”, destacou.
Contudo, cerca de 40 mil toneladas da safra 2025/2026, que seriam exportadas aos EUA, agora correm o risco de ficarem estocadas no Brasil, caso não haja redirecionamento imediato a outros mercados. “Estamos trabalhando para realocar esses volumes. Exportamos para mais de 100 países e esperamos abrir novas portas nos próximos meses”, complementou o executivo.
Madeireiras também sentem o impacto do ‘tarifaço’
O presidente do Sindicato da Madeira (Sindimate), José Fuck, revelou que contratos do setor madeireiro com os EUA também foram suspensos, o que gera forte instabilidade. Ao contrário de outras lideranças, Fuck tem buscado diálogo direto com os clientes americanos, sem depender exclusivamente de canais governamentais.
Ele foi enfático ao dizer que não é possível simplesmente substituir o mercado dos Estados Unidos, dada sua relevância no cenário global e sua capacidade de consumo.
Críticas à condução política da crise
Durante um evento realizado no dia 1º de agosto em Canoinhas, o presidente da Federação das Indústrias de Santa Catarina (Fiesc), Mauro César de Aguiar, fez críticas indiretas à condução política do governo federal. “O tarifaço não foi contratado pelo setor produtivo”, disse, em clara referência às motivações políticas por trás da decisão americana, ligadas ao ex-presidente Donald Trump.
Apesar da crítica velada ao governo Lula, Aguiar destacou a importância de uma postura institucional firme e estratégica para mitigar os impactos da medida tarifária no setor produtivo nacional.
Por Demais FM.
