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‘Se tiver que ir, vou eu’: motorista de caminhão detalha acidente na Serra Dona Francisca

 

Foram segundos de medo, apreensão e sangue frio. O motorista Valdoir Leges de Barros, de 59 anos, que dirigia o caminhão carregado com 25 toneladas de ácido sulfônico que bateu contra um barranco na Serra Dona Francisca em Joinville, no dia 29 de janeiro, contou, com exclusividade ao Grupo ND, os momentos anteriores ao acidente e as decisões que tomou para evitar uma tragédia.

De acordo com o motorista, natural da cidade de Uruguaiana, ao fazer uma das primeiras curvas da serra, ele notou que havia algo errado. “Quando eu fiz a primeira curva para a direita, eu percebi que o freio estava com pouco ar, e eu já não consegui diminuir a velocidade como eu queria”, explica.

 

 

Ele conta que não conhecia a Serra Dona Francisca, mas soube por meio de colegas que o trajeto era sinuoso e, quando chegava próximo ao início das curvas, preparou a velocidade do caminhão e baixou a marcha para descer com segurança.

Mesmo assim, algo aconteceu, e o sistema de freios falhou, segundo Valdoir. Segundo o motorista, o caminhão havia passado por revisões recentemente, inclusive com troca de peças e regulagens dos freios.

 

 

Após avistar um caminhão que transportava um contêiner a sua frente, ele pensou em aproximar a carreta que dirigia na traseira do veículo, para tentar parar. Valdoir desistiu da ideia pois imaginou que a manobra poderia dar errado e causar um acidente com os carros da frente.

Foi quando a pista contrária ficou liberada, e ele enxergou o barranco do km 15 da Serra Dona Francisca. Havia um espaço estreito entre um caminhão e os carros que estavam atrás

“Só pedi a Deus que eu pudesse livrar as pessoas que estavam na minha frente e colocar [o caminhão] bem naquele espaço que deu, entre o caminhão e os carros”.

Valdoir, então, deixou o caminhão correr para conseguir ultrapassar os veículos que estavam à frente e não atingi-los. Ele também cogitou jogar o caminhão em outra ribanceira, à esquerda, caso algum veículo surgisse na mão contrária subindo a serra.

“Eu pedi para Deus: ‘se tiver que ir eu, vou eu, não vou matar ninguém’”, conta. Em uma manobra arriscada, ele conseguiu evitar a colisão com os outros veículos, mas o derramamento de ácido sulfônico foi inevitável com a batida contra o barranco.

Ainda nos últimos segundos antes da colisão, Valdoir tentou segurar o caminhão mais uma vez. “No último instante, eu puxei todos os freios. Puxei o estacionário, o da carreta, e o freio de emergência, e nenhum obedeceu”.

 

 

Ao se encolher dentro da cabine nos segundos anteriores ao impacto, o motorista conseguiu evitar fraturas graves, mas acabou sendo atingido pelo ácido sulfônico no momento em que descia do caminhão, pois o produto havia se derramado sobre a cabine. O produto atingiu as costas de Valdoir, que teve queimaduras.

De acordo com o motorista, o produto havia sido buscado na cidade de Junín, que fica na província de Buenos Aires, na Argentina. A carga de ácido sulfônico seria entregue em uma empresa da cidade de Joinville, que atua no setor químico.

A rota usada por Valdoir seria a mais curta, e teria economizado cerca de 160 km. “Tem a BR-470, que vai até Itajaí, só que ficaria 160 km a mais para mim. Mas tem serra também, esse imprevisto que deu, acho que não tem lugar”, afirma.

O futuro de Valdoir nas estradas ainda é incerto. Casado e pai de seis filhos, o motorista ainda vai discutir com a família qual o caminho profissional tomará a partir de agora. Uma decisão que tomará em casa, no conforto do lar e próximo de quem ama, após viver momentos de profunda apreensão.

 

 

Um inquérito foi instaurado pela Polícia Civil para apurar o que houve na Serra Dona Francisca. Até esta sexta-feira (9), a investigação não apontou uma causa para o acidente, mas a perícia já identificou alguns problemas.

De acordo com a Polícia Científica, o tacógrafo do caminhão não estava funcionando no momento do acidente. O dispositivo é obrigatório e registra a velocidade do veículo.

Outro ponto apontado pelos peritos foram indícios de um superaquecimento do sistema de frenagem. Análises preliminares, porém, não apontaram uma falha nos freios, que foram testados durante a perícia.

Paralelamente, o IMA (Instituto do Meio Ambiente), emitiu um Auto de Infração Ambiental e multou a empresa responsável pelo caminhão em R$ 3,3 milhões, no último dia 2 de fevereiro. A transportadora tem 20 dias para se manifestar e recorrer da decisão.

 

Por ND+ / Demais FM

 

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