Política

O erro de impor Carlos Bolsonaro aos catarinenses

Marcello Corrêa Petrelli, presidente do Grupo ND

 

Santa Catarina tem história, identidade e altivez. É um Estado de excelência, com bons indicadores sociais, econômicos e culturais, fruto de uma construção geracional com identidade própria. Nosso povo respeita as leis, tem valores religiosos e familiares, e é solidário. Essa identidade foi forjada pelo trabalho do cidadão comum e pela visão empreendedora dos seus moradores. Somos um Estado que deu certo, orgulho para quem aqui vive e trabalha.

Por esse motivo, não podemos aceitar que Santa Catarina seja uma extensão de um projeto político familiar de Jair Bolsonaro, tampouco trampolim de estratégias que tratam o eleitor catarinense como massa de manobra. Ao impor o nome de seu filho Carlos Bolsonaro como pré-candidato ao Senado por nosso Estado, o ex-presidente revela um profundo desconhecimento da alma catarinense.

É verdade que nosso povo sempre esteve alinhado com as ideias e valores que levaram o ex-presidente ao poder – mas muito antes de Bolsonaro ser Bolsonaro. Está no DNA dos catarinenses o patriotismo, a defesa da democracia, o respeito às leis e ao que é certo. O seu ideário encontrou sintonia entre os catarinenses, que defendem valores similares – daí sua expressiva votação.

Nesse contexto, é inegável reconhecer o papel do ex-presidente Jair Bolsonaro no resgate de valores que há muito tempo pareciam adormecidos no cenário político nacional. Bolsonaro teve o mérito de despertar na população um renovado senso de cidadania, orgulho nacional e sentimento de pertencimento — elementos que encontraram forte ressonância, especialmente entre os catarinenses.

Porém, os eleitores catarinenses são críticos e atentos. Já votaram em outro momento em outros partidos, em outros candidatos, com consciência e independência. O catarinense tem autonomia e inteligência diante das urnas. Não vota por cabresto, não aceita tutelas. Quando deu a Jair Bolsonaro votações recordes em 2018 e 2022, foi porque havia uma aliança genuína de princípios. Mas esse alinhamento de ideias não pode ser confundido com submissão cega.

Santa Catarina também não é um Estado radical e extremista, como a mídia nacional tenta nos classificar por conta do bolsonarismo. Não podemos aceitar ser vistos de forma distorcida. Isso é uma falácia. Somos o Estado mais aberto do país, que mais recebeu migrantes nos últimos cinco anos. Acolhemos os venezuelanos, haitianos, argentinos e outros povos que aqui encontram emprego, dignidade e oportunidades. Foram 500 mil migrantes recebidos de braços abertos, segundo pesquisa do IBGE.

Jair Bolsonaro errou e foi injusto com os políticos catarinenses ao impor a candidatura carioca de Jorge Seif Jr., apelidado de “06” pelo ex- -presidente em alusão aos seus cinco filhos biológicos, para concorrer ao Senado. Acabou eleito, pela força política do 22, mas ocupando uma vaga que poderia ser de outros políticos com raízes e que conhecem a realidade catarinense.

Qualquer candidato alinhado à direita, na ocasião, teria o mesmo destino, porque Seif não nos representa, não interage, não está presente e não participa. Já sentimos o que significa uma representação política sem nenhuma identidade, conhecimento ou interação, assim como os prejuízos e os espaços que os catarinenses perdem.

Agora, mais uma vez, o ex-presidente Jair Bolsonaro comete um equívoco ao tratar Santa Catarina como seu feudo particular ao impor a candidatura do seu filho, vereador no Rio de Janeiro. É uma postura que não podemos aceitar.  Esta semana também anunciou que outro filho – Renan Bolsonaro -, conhecido como o filho “04”, atual vereador em Balneário Camboriú, será candidato a deputado federal pelo PL em Santa Catarina.

Carlos Bolsonaro é vereador no Rio de Janeiro há mais de 20 anos. Nunca teve vínculo com Santa Catarina, não conhece nossos desafios, nossas necessidades ou demandas, não construiu pontes com nossas lideranças políticas, empresariais ou comunitárias. Sua eventual candidatura soa artificial, improvisada e desrespeitosa. Não se trata de rejeitar o sobrenome Bolsonaro ou desprezar a sua força política – trata-se de exigir coerência, compromisso e identidade com o nosso eleitorado.

O projeto nacional de Bolsonaro, que é legítimo, não pode se sobrepor à vontade dos catarinenses, que contam com nomes que podem preencher as duas vagas ao Senado, identificados com a direita e com reais chances de serem eleitos. Não podemos admitir essa tese, porque se trata de puro oportunismo e desrespeito. Importar políticos do Rio de Janeiro não é bom para Santa Catarina, porque nosso modo de fazer política não é o mesmo. O crime organizado e a corrupção transformaram o Rio, infelizmente, num “narcoestado”, num exemplo de fracasso das políticas públicas que não queremos para Santa Catarina.

Pior ainda é ver líderes locais se curvando a essa imposição. O governador Jorginho Mello, homem de trajetória respeitável, não precisa se apequenar diante de um movimento que mais parece chantagem partidária. Seu governo tem méritos próprios, sua liderança é reconhecida, e sua história política o credencia a agir com autonomia, não com subserviência.

Jorginho existia antes de Bolsonaro. Foi eleito seis vezes deputado (quatro vezes estadual e duas federal), uma vez senador e agora governador. Poderia ter sido eleito sem Bolsonaro, mas talvez não teria sido eleito contra o Bolsonaro. Venceu nas urnas por ser Jorginho. Não deveria ceder, de forma tão submissa, aos interesses familiares do ex-presidente, podendo até prejudicar seu projeto de reeleição.

Como presidente do PL, Jorginho não tem o direito de entregar outra vaga ao Rio de Janeiro, como já fez equivocadamente com Jorge Seif. É um desprestígio aos nossos políticos e à política catarinense. Como governador, tem a obrigação de defender nossos representantes. Não deve aceitar este jogo político, abrindo espaço para alguém de fora de Santa Catarina.

A deputada federal Caroline De Toni também erra ao classificar como “bairrismo” a rejeição à candidatura de Carlos Bolsonaro. Não é bairrismo, é senso de pertencimento. É dignidade cívica.

Não somos bairristas. Nós nos damos o respeito e queremos ser respeitados. Queremos o mesmo respeito que seu eleitor tem pelo seu trabalho parlamentar no Congresso Nacional. De Toni tem luz própria e pode se eleger senadora sem Bolsonaro, mas talvez não contra ele.

Nossas lideranças políticas, empresariais, sociais e cidadãs precisam se manifestar diante do equívoco de Bolsonaro. Contamos com nomes capazes de defender com coragem e legitimidade as bandeiras da direita – as mesmas que Bolsonaro defende. Lideranças que nasceram, se mudaram, moram e conhecem este chão. Que falam com autoridade sobre as reais necessidades do povo catarinense.

Caso nossas lideranças não se manifestem contra a importação de candidatos, só restará ao eleitor decidir nas urnas. Como muitos catarinenses, me sinto constrangido por essa situação criada pelo ex-presidente. Não precisamos importar representantes – muito menos sob a lógica de “encaixe” ideológico.

É preciso que os eleitores prestem atenção ao projeto político de Bolsonaro. Hoje lança seus dois filhos como candidatos por Santa Catarina. O que virá depois? O que impedirá o ex-presidente de pleitear em 2030 a candidatura ao governo catarinense para um familiar de sobrenome Bolsonaro?

A construção de uma candidatura ao Senado exige mais do que sobrenome forte: exige história e compromisso com o nosso futuro. O que se espera de um líder com a biografia de Jair Bolsonaro é grandeza, humildade e diálogo, características que lhe faltaram quando presidiu a Nação. E agora, sem oferecer escuta ou diálogo, tenta mais uma vez usar o prestígio que ainda entende deter aqui para acomodar seus próprios interesses familiares. Se quiser continuar sendo respeitado por este povo que tanto o acolheu, que respeite primeiro nossa soberania política.

Jair Bolsonaro, como líder nacional que é, não está sendo republicano nem democrático. Ao impor candidatos, desrespeita os eleitores e os políticos locais que defendem as mesmas ideias. Não há mais espaço para imposição de candidaturas. Em Santa Catarina, o voto pode ser conservador – mas é, antes de tudo, livre. E liberdade é incompatível com autoritarismo ou caciquismo político.

 

 

Por: Marcello Corrêa Petrelli
Cidadão e presidente do Grupo ND

Grupo de Notícias