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Crise na Previdência de Itaiópolis: Prefeito detalha origem do déficit e impacto de 30 anos de desequilíbrio financeiro

Foto: Emerson Micta/D+News

Gestor afirma que não há culpados, mas um conjunto de decisões e omissões que levaram ao rombo previdenciário

Durante entrevista ao Jornal D+ News, o prefeito de Itaiópolis Ivan Rech apresentou, em detalhes, o histórico do déficit previdenciário do município, explicou os fatores que contribuíram para o desequilíbrio e reforçou a necessidade urgente de uma reforma no regime próprio. Segundo ele, a situação se acumulou ao longo de décadas, impactando diretamente a capacidade de investimento público.

Redução de alíquotas e lacuna contributiva iniciaram o desequilíbrio

O prefeito destacou que o problema não surgiu recentemente. Ele começou ainda nos anos 1990, quando a legislação permitia que os municípios estabelecessem suas próprias alíquotas previdenciárias.

Segundo o relato, em 1995, Itaiópolis reduziu a contribuição patronal de 10% para 5% e a do servidor de 6% para 5%, criando uma defasagem em relação ao Regime Geral, cuja contribuição era de 30%.

Essas regras permaneceram por 10 anos, até 2002, quando a alíquota voltou a subir para 29,6%. Porém, durante esse período:

  • a arrecadação foi menor;
  • a base de cálculo ficou defasada;
  • e o efeito acumulado gerou um buraco financeiro difícil de reverter.

A lacuna contributiva, segundo o prefeito, é um dos principais fatores da dívida previdenciária atual.

Aumentos salariais acima da inflação ampliaram o déficit

Outro elemento citado foi o impacto dos reajustes salariais. Apesar de reconhecer o merecimento dos servidores, o prefeito explicou que aumentos acima da inflação geraram distorções no cálculo atuarial.

Um exemplo foi o piso da educação, que, entre 2009 e 2024:

  • aumentou 382%,
  • enquanto a inflação acumulada no período foi 144%.

Com isso, a remuneração atual não encontra equivalência nas contribuições feitas no passado, o que pressiona o sistema.

Expectativa de vida maior gera mais tempo de pagamento

O prefeito também destacou o impacto da longevidade. Em 1992:

  • homens viviam, em média, 63 anos; hoje vivem 73,1 anos;
  • mulheres viviam 70 anos; hoje chegam a 79,9 anos;
  • no Sul, a média passa de 85 anos entre mulheres.

Com mais anos de vida, aumentam os gastos com aposentadorias e pensões — mas as contribuições não acompanharam esse crescimento.

Incorporações, ampliação de carga horária e regras antigas agravaram a situação

O gestor também citou:

  • incorporações de gratificações sem contribuição previdenciária;
  • aposentadorias calculadas pelo último salário durante um período;
  • ampliações de jornada (de 20h para 30h ou 40h) sem compensação atuarial;
  • ausência total de reformas previdenciárias no município.

Enquanto o Governo Federal e o Estado de Santa Catarina já realizaram várias reformas, Itaiópolis manteve regras antigas desde a criação do sistema.

Município já aportou R$ 25 milhões desde 2019

Para manter o regime previdenciário funcionando, o município começou, em 2019, a realizar aportes financeiros com recursos próprios. Até o momento, foram:

  • R$ 25 milhões já aportados;
  • previsão de R$ 7 milhões em 2026;
  • previsão de R$ 11 milhões em 2027.

Esses valores poderiam ter sido utilizados em obras, pavimentação e outros serviços essenciais.

O prefeito citou que:

  • Itaiópolis arrecada cerca de R$ 3 milhões por ano em IPTU.
  • Somente em 2024, foram pagos R$ 5 milhões em aportes + R$ 2,5 milhões de reparcelamentos.

Segundo ele, isso representa três anos inteiros de arrecadação de IPTU sendo usados para cobrir a previdência.

Risco de intervenção federal e perda do certificado previdenciário

O prefeito revelou que:

  • o Ministério da Previdência enviou, em 2023, uma notificação alertando para intervenção caso a reforma não seja feita;
  • o Tribunal de Contas reforçou o aviso em janeiro de 2024;
  • 69 municípios catarinenses têm regimes próprios, e Itaiópolis figura entre os poucos que ainda não fizeram a sua reforma.

Sem o Certificado de Regularidade Previdenciária, o município:

  • não recebe transferências federais;
  • perde capacidade de investimento;
  • pode ficar financeiramente insolvente.

Reforma deve seguir o modelo do Estado de Santa Catarina

Após contratar uma consultoria atuarial, o município comparou diferentes cenários.

A decisão, segundo o prefeito, foi refletir integralmente as regras previdenciárias do Estado:

  • idade mínima;
  • tempo de contribuição;
  • regras de transição;
  • contribuição suplementar para inativos que recebem acima de R$ 5 mil;
  • regras mais rígidas para novos servidores.

A proposta encaminhada à Câmara é praticamente idêntica à adotada pelo Estado.

O modelo federal foi avaliado, mas descartado por ser considerado mais rígido.

Impacto da reforma não é imediato: equilíbrio demora 40 anos

Segundo os estudos apresentados:

  • mesmo com a reforma, o déficit só começa a diminuir após alguns anos;
  • a curva de desequilíbrio só será revertida em cerca de 40 anos;
  • o município seguirá arcando com cerca de 60% do déficit, enquanto servidores compartilharão 40% das responsabilidades.

“Não é uma solução para amanhã, mas é o início da correção”, afirmou o prefeito.

Contratação de novos servidores depende da aprovação da reforma

O concurso realizado em 2024 aprovou dezenas de profissionais, especialmente na educação. Porém, segundo o prefeito:

  • nomear novos servidores com as regras antigas significaria aumentar ainda mais o déficit;
  • por isso, nenhuma nomeação ocorreu até agora.

Após a aprovação da reforma, os novos servidores ingressarão com regras já ajustadas, reduzindo o impacto futuro.

Sem reforma, município pode parar de investir em obras e serviços

O prefeito alertou que, se nada for feito:

  • o déficit pode inviabilizar o instituto de previdência;
  • o município pode perder capacidade de investimento;
  • serviços básicos podem ser afetados;
  • obras públicas continuarão atrasadas.

Ele citou que apenas os aportes desde 2019 equivaleriam a aproximadamente 12 a 14 km de pavimentação.

“Se não fizermos agora, alguém fará por nós”

A entrevista terminou com um alerta do Tribunal de Contas, relatado pelo prefeito:

“Ou vocês fazem a reforma, ou alguém vai mandar vocês fazerem — e será pela regra da União.”

Considerações finais

O prefeito agradeceu o espaço no Jornal D+ News e reforçou que continuará apresentando o tema para a população e para os servidores.

Ele destacou que já está em agenda uma nova reunião para detalhar o projeto e esclarecer dúvidas.

“Não estamos procurando culpados. Estamos procurando soluções. O problema não é meu, não é de um governo; é do município. E resolver agora é menos doloroso do que adiar.”

Por Demais FM

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