O Brasil, uma das maiores potências agrícolas do mundo, está no centro de um debate internacional sobre o uso de agrotóxicos. Um levantamento apresentado pela geógrafa Larissa Mies Bombardi, pesquisadora do Instituto de Pesquisa para o Desenvolvimento (IRD), da França, aponta que sete dos dez agrotóxicos mais comercializados no país possuem restrições ou são proibidos na União Europeia (UE).
A pesquisadora afirma que essa diferença de regulamentação revela uma desigualdade no tratamento de substâncias químicas entre países desenvolvidos e nações produtoras de commodities agrícolas, fenômeno que ela classifica como “colonialismo químico”.
Segundo Bombardi, produtos proibidos na Europa continuam sendo utilizados no Brasil porque os critérios de avaliação e os limites de risco adotados pelos países são diferentes.
“São proibidos porque são cancerígenos ou porque provocam malformação fetal, distúrbios hormonais ou impactos severos no ambiente”, afirmou a pesquisadora durante a 78ª Reunião Anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), realizada em Niterói (RJ).
Lista dos dez agrotóxicos mais vendidos no Brasil e situação na União Europeia
| Produto | Situação na União Europeia |
|---|---|
| Glifosato e seus sais | Permitido com restrições |
| Mancozebe | ❌ Proibido |
| 2,4-D | ❌ Proibido |
| Acefato | ❌ Proibido |
| Clorotalonil | ❌ Proibido |
| Atrazina | ❌ Proibido |
| S-metolacloro | ❌ Proibido |
| Glufosinato (sal de amônio) | Permitido com restrições |
| Malationa | Permitido com restrições |
| Dibrometo de Diquate | ❌ Proibido |
Impactos ambientais entram no centro do debate
Além dos possíveis efeitos sobre a saúde humana, a pesquisadora chama atenção para os impactos ambientais provocados pelo uso intensivo dessas substâncias.
Entre os dados apresentados está o declínio da população de insetos registrado entre 2009 e 2019. Segundo estudos citados por Bombardi, houve uma redução global de 41% no número de insetos e de até 53% nas populações de borboletas.
A preocupação é que muitos agrotóxicos não atingem apenas organismos considerados pragas agrícolas, mas também espécies fundamentais para o equilíbrio dos ecossistemas, como polinizadores.
Um dos exemplos citados é a atrazina, herbicida amplamente utilizado no Brasil. Segundo estudos apresentados pela pesquisadora, o produto pode estar associado a alterações em anfíbios, incluindo mudanças no desenvolvimento reprodutivo de algumas espécies.
Brasil lidera exportação de pesticidas proibidos na Europa
De acordo com os dados apresentados pela pesquisadora, o Brasil foi o principal destino das exportações europeias de pesticidas proibidos na União Europeia em 2023.
| Destino | Quantidade exportada |
|---|---|
| Brasil | 3 mil toneladas |
| Ucrânia, Estados Unidos e Rússia (somados) | 2,6 mil toneladas |
Para Bombardi, a contradição está no fato de que algumas substâncias consideradas perigosas em determinados países continuam sendo comercializadas para utilização em outras regiões.
Mercado concentrado nas mãos de poucas empresas
Outro ponto levantado pela pesquisadora é a concentração do mercado mundial de sementes e defensivos agrícolas.
Segundo ela, quatro grandes grupos dominam parcela significativa desses setores:
| Empresa | País de origem |
|---|---|
| Bayer | Alemanha |
| Basf | Alemanha |
| Corteva | Estados Unidos |
| Sinochem | China |
Essas empresas, segundo a pesquisadora, concentram aproximadamente 51% do mercado de sementes e 62% do mercado de agrotóxicos.
A crítica apresentada é que essa concentração aumenta a dependência dos produtores em relação a grandes conglomerados internacionais.
Pesquisadora deixou o Brasil após ameaças
Larissa Bombardi atualmente vive na Bélgica, onde atua como pesquisadora do Laboratório de Agroecologia da Universidade Livre de Bruxelas.
Ela deixou o Brasil em 2021 após relatar ameaças recebidas depois da publicação de estudos sobre resíduos de agrotóxicos nos alimentos brasileiros.
Segundo a pesquisadora, o debate sobre agrotóxicos precisa estar ligado também à estrutura fundiária brasileira e ao modelo de produção agrícola adotado pelo país.
Fiscalização brasileira e reavaliação de produtos
No Brasil, a Lei nº 14.785/2023 estabelece regras para registro e utilização de agrotóxicos. O processo envolve três órgãos:
| Órgão | Responsabilidade |
|---|---|
| Ministério da Agricultura e Pecuária (MAPA) | Registro dos produtos |
| Anvisa | Avaliação toxicológica e riscos à saúde |
| Ibama | Avaliação ambiental |
A Anvisa informou que, desde 2006, concluiu 20 reavaliações de ingredientes ativos. Como resultado, 13 substâncias foram proibidas no país.
Entre os produtos banidos estão:
- Paraquate;
- Carbendazim;
- Lindano;
- Metamidofós;
- Monocrotofós;
- Parationa metílica.
Outros ingredientes tiveram restrições de uso após avaliações de risco, como:
- Glifosato;
- 2,4-D;
- Acefato.
Debate divide especialistas e coloca modelo agrícola brasileiro em discussão
O uso de agrotóxicos continua sendo um dos temas mais controversos da agricultura brasileira. De um lado, produtores e setores do agronegócio defendem que os defensivos são ferramentas necessárias para garantir produtividade e competitividade internacional.
Do outro, pesquisadores e entidades ambientais alertam para riscos associados ao uso excessivo e defendem maior controle, fiscalização e incentivo a modelos agrícolas com menor dependência química.
O debate expõe uma questão central: como conciliar a produção em larga escala de alimentos e commodities com a proteção da saúde humana, da biodiversidade e do meio ambiente?
Por Demais FM / Informações da Agência Brasil
