Um vírus altamente letal acendeu um novo alerta para a conservação da biodiversidade da Mata Atlântica em Santa Catarina. Pesquisadores comprovaram que surtos recorrentes de ranavirose estão associados a uma queda de 83% na reprodução da perereca-macaco (Phyllomedusa distincta) em uma lagoa localizada na Reserva Particular do Patrimônio Natural (RPPN) Santuário Rã-Bugio, em Guaramirim, no Norte catarinense.
O estudo, apoiado pela FAPESP e publicado em 20 de agosto na revista científica Biodiversity and Conservation, representa a primeira evidência robusta na América do Sul de colapso de uma população silvestre associado ao ranavírus. O patógeno não atinge apenas anfíbios: também pode infectar répteis e peixes.
A situação preocupa pesquisadores porque a perereca-macaco é uma espécie endêmica da Mata Atlântica e os resultados indicam que o ranavírus pode representar uma ameaça à conservação dos anfíbios maior do que se conhecia até agora.
324 girinos encontrados mortos
O acompanhamento realizado na reserva identificou pelo menos três períodos de mortandade. O primeiro ocorreu em janeiro de 2024. Um segundo foi registrado entre novembro de 2024 e janeiro de 2025 e um terceiro entre novembro de 2025 e março de 2026.
Ao todo, os pesquisadores encontraram 324 girinos mortos em apenas uma lagoa.
| Dados registrados | Quantidade |
|---|---|
| Total de girinos mortos | 324 |
| Pererecas-macaco mortas | 315 |
| Pererecas-de-pijama mortas | 9 |
| Pererecas-macaco positivas para ranavírus | 279 (88,6%) |
| Pererecas-de-pijama positivas | 8 (88,9%) |
| Períodos de mortandade identificados | 3 |
Entre as 315 pererecas-macaco encontradas mortas, 279 testaram positivo para o ranavírus, correspondendo a 88,6%.
Das nove pererecas-de-pijama (Boana bischoffi) encontradas mortas, oito estavam infectadas, índice de 88,9%. O número de animais dessa segunda espécie, entretanto, foi considerado pequeno pelos pesquisadores para caracterizar uma mortandade em massa.
Carga viral chegou a quase 10 bilhões de cópias
Um dos dados que chama atenção é a quantidade de vírus encontrada nos animais. Nos girinos de perereca-macaco, a carga viral chegou a quase 10 bilhões de cópias do vírus por microlitro de amostra. Nas pererecas-de-pijama, foram registradas aproximadamente 2 bilhões de cópias por microlitro.
Para confirmar a doença, os pesquisadores também analisaram o fígado de 13 girinos por meio de histologia, técnica utilizada para observar alterações nos tecidos e nas células ao microscópio.
As lesões encontradas confirmaram a gravidade da infecção.
O que o vírus provoca nos animais
Nos girinos, a ranavirose pode evoluir rapidamente e provocar destruição e necrose dos tecidos de órgãos vitais, entre eles o fígado. Entre os sinais observados estão inchaço abdominal, vermelhidão intensa, úlceras e múltiplas hemorragias. As hemorragias podem atingir inclusive os olhos dos animais.
O trabalho é considerado especialmente importante porque, embora mortes suspeitas já tivessem sido registradas no continente americano, os pesquisadores conseguiram confirmar a ranavirose como causa das mortes de uma espécie nativa por meio da análise dos tecidos e dos vírus isolados dos animais.
Monitoramento começou em 1999 e tem participação de pesquisadores itaiopolenses
A descoberta da redução populacional só foi possível graças a um trabalho de acompanhamento iniciado muito antes dos surtos. A lagoa é monitorada continuamente desde 1999 por Germano Woehl Jr. e Elza Nishimura Woehl, pesquisadores itaiopolenses, do Instituto Rã-Bugio para Conservação da Biodiversidade, que também participaram do estudo.
Durante o período reprodutivo, entre junho e fevereiro, é realizada diariamente a contagem das massas de ovos encontradas na vegetação ao redor da lagoa. A reprodução da perereca-macaco tem uma característica particular. A fêmea deposita os ovos sobre folhas da vegetação e dobra a folha ao redor deles, formando uma espécie de proteção contra o ressecamento. Depois da eclosão, os girinos caem diretamente na água e continuam seu desenvolvimento.
Foi justamente a comparação desses registros históricos que revelou a dimensão do problema. Entre agosto de 2025 e fevereiro de 2026, depois dos episódios de mortandade, a quantidade de massas de ovos foi substancialmente menor do que aquela registrada nos mesmos meses entre 1999 e 2004. Com base nessa comparação, os pesquisadores calcularam um declínio de 83%.
Baixa umidade pode aumentar o risco
Os pesquisadores também investigaram se fatores climáticos poderiam estar relacionados às mortes. Foram analisadas as condições ambientais registradas nas duas semanas anteriores e durante os episódios de mortandade.
Nenhum fator ambiental isolado apresentou influência estatística tão significativa sobre o declínio quanto a ranavirose. No entanto, o estudo identificou um aumento abrupto do risco de surto quando a umidade do ar cai de 90% para 65% nas duas semanas anteriores às mortes. Uma das hipóteses é que o vírus permaneça presente no ambiente sem necessariamente provocar a doença durante todo o tempo. Em períodos de menor umidade, entretanto, as condições podem favorecer sua replicação.
Além disso, baixas taxas de umidade podem comprometer o sistema imunológico dos anfíbios. Há ainda outro fator: com menos água disponível na lagoa, os girinos ficam concentrados em uma área menor. Essa proximidade pode facilitar a transmissão do vírus entre os animais.
Preocupação vai além de uma única lagoa
O ranavírus é encontrado com relativa facilidade em rãs-touro (Aquarana catesbeiana), tanto em criações comerciais quanto na natureza, muitas vezes sem provocar doença. Nas últimas décadas, entretanto, aumentaram os registros de episódios suspeitos de mortandade de espécies nativas nas Américas do Sul e do Norte.
A preocupação dos pesquisadores é que outros episódios de morte em massa possam estar acontecendo sem serem detectados. O monitoramento da lagoa no Santuário Rã-Bugio continua, e pesquisadores da Universidade Federal do Paraná (UFPR) pretendem coletar amostras em áreas próximas para avaliar a presença e a prevalência do ranavírus.
Nova ameaça para os anfíbios da Mata Atlântica
Durante anos, uma das maiores preocupações envolvendo doenças em anfíbios esteve relacionada ao fungo quitrídio (Batrachochytrium dendrobatidis), associado a grandes declínios e extinções de anfíbios em diferentes regiões do planeta. Os novos resultados indicam que o ranavírus também precisa entrar no radar da conservação.
Segundo os pesquisadores, o vírus já está disseminado pela Mata Atlântica e ainda é necessário compreender qual é a dimensão real do risco para as espécies nativas. Uma das linhas de investigação sugeridas é analisar anfíbios preservados em coleções de museus de zoologia. O objetivo seria descobrir há quanto tempo o ranavírus circula no Brasil e se ele já provocava impactos em populações de anfíbios no passado.
O estudo integra o projeto “Da história natural à conservação dos anfíbios brasileiros”, apoiado pela FAPESP e coordenado pelo professor Luís Felipe Toledo, do Instituto de Biologia da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). O trabalho também recebeu financiamento do CNPq e do Ministério da Ciência, Inovação e Universidades da Espanha.
Os resultados colocam o episódio registrado em Guaramirim como um importante sinal de alerta para a conservação da fauna da Mata Atlântica. Ao mesmo tempo, destacam a importância do monitoramento de longo prazo realizado com a participação dos pesquisadores itaiopolenses Germano Woehl Jr. e Elza Nishimura Woehl, cujos registros históricos contribuíram para dimensionar a redução observada na população de pererecas.
Fonte: Agência FAPESP.
