Um estudo publicado na revista Science revelou que o grau de toxicidade dos pesticidas aumentou em todo o mundo entre 2013 e 2019. A pesquisa, conduzida por cientistas da Universidade de Kaiserslautern-Landau, analisou 625 substâncias em 201 países e concluiu que a toxicidade total aplicada cresceu para a maioria dos grupos de organismos, contrariando a meta estabelecida na Conferência das Nações Unidas sobre Biodiversidade, que prevê a redução de 50% dos riscos até 2030.
O Brasil aparece entre os protagonistas desse cenário global. Ao lado de China, Estados Unidos, Argentina e Ucrânia, figura entre os países com maior intensidade de toxicidade por área agrícola. O dado reflete o peso do agronegócio e das culturas extensivas, como soja, milho e algodão, que concentram grande parte da carga química aplicada no campo.
A discussão, no entanto, deixa de ser apenas estatística quando ganha contornos locais. Em Santa Catarina, um levantamento apresentado pelo Ministério Público de Santa Catarina identificou resíduos de agrotóxicos na água de abastecimento público em 155 municípios, o equivalente a 52,5% das cidades do estado. Entre eles estão Itaiópolis, no Planalto Norte, e Ituporanga, no Vale do Itajaí.
O relatório apontou a presença de 42 princípios ativos diferentes, incluindo cinco substâncias proibidas no Brasil pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária: carbofurano, metolacloro, molinato, benomil e haloxifobe metílico. Itaiópolis integra a lista dos sete municípios onde foram detectadas substâncias já banidas no país. Em Ituporanga, as análises revelaram um cenário ainda mais complexo: um “coquetel” com 23 ingredientes ativos diferentes na água.
As autoridades asseguram que os níveis encontrados estão abaixo dos Valores Máximos Permitidos pela legislação e que a água é considerada própria para consumo imediato. A preocupação, contudo, não está restrita ao curto prazo. O debate técnico gira em torno da exposição crônica — o contato contínuo e cumulativo com pequenas doses ao longo de décadas — e dos efeitos combinados de múltiplas substâncias, já que a legislação atual avalia os compostos de forma isolada.
O contraste é inevitável. De um lado, regiões como Itaiópolis e Ituporanga têm forte vínculo com a produção agrícola, que sustenta a economia local e gera renda para milhares de famílias. De outro, enfrentam o desafio de equilibrar produtividade, sustentabilidade e saúde pública. A mesma atividade que impulsiona o desenvolvimento regional também exige revisão constante de práticas e políticas para reduzir riscos ambientais.
O estudo internacional aponta que apenas 20 pesticidas por país concentram mais de 90% da toxicidade total aplicada. Entre as classes mais impactantes estão inseticidas como piretroides, organofosforados e neonicotinoides, além de herbicidas de alto volume, como glifosato e paraquat, frequentemente associados a riscos ambientais e à saúde humana.
No cenário global, poucos países caminham para cumprir a meta da ONU. O Brasil, segundo os pesquisadores, precisaria reverter padrões consolidados há mais de 15 anos para alcançar os objetivos estabelecidos. Entre as alternativas sugeridas estão a substituição de pesticidas altamente tóxicos, a expansão da agricultura orgânica, o controle biológico de pragas, a diversificação de culturas e o manejo mais preciso das lavouras.
Para Itaiópolis e Ituporanga, o debate ultrapassa a esfera técnica e assume caráter estratégico. A questão não é apenas reduzir índices ou cumprir metas internacionais, mas discutir que modelo de desenvolvimento se pretende fortalecer. A presença de resíduos, ainda que dentro dos limites legais, sinaliza a necessidade de monitoramento contínuo, transparência de dados e diálogo entre produtores, autoridades e comunidade.
Em regiões onde o campo é motor da economia, a busca por equilíbrio entre produção e preservação se torna urgente. O desafio está em garantir que o avanço tecnológico e o aumento da produtividade não caminhem à frente da proteção ambiental e da saúde coletiva. O alerta lançado pela ciência internacional ecoa, agora, nas torneiras de municípios catarinenses, transformando um debate global em uma reflexão local e imediata.
Por Demais FM / MPSC
