Transformar potencial turístico em uma atividade organizada, capaz de gerar experiências aos visitantes, oportunidades aos empreendedores e desenvolvimento para o município exige mais do que possuir belas paisagens ou uma história rica. É necessário planejamento, integração, qualificação e, sobretudo, articulação entre quem faz o turismo acontecer.
Foi com esse olhar que a AITUR – Associação Itaiopolense de Turismo participou, entre os dias 19 e 21 de agosto, de uma missão técnica ao Rio Grande do Sul promovida pelo Sebrae, dentro do projeto Rota Encantos do Planalto Norte – Grupo 2026.
Representando a diretoria da AITUR, participaram Edilaine Reinart e Áurea Lis, acompanhadas pela representante do Sebrae, Cíntia Mara. Durante três dias, o grupo percorreu Caxias do Sul, Flores da Cunha e Farroupilha, na Serra Gaúcha, conhecendo iniciativas consolidadas e diferentes maneiras de estruturar produtos e experiências turísticas a partir das características de cada território.
Mais do que uma viagem de visitação, a missão teve caráter técnico. O objetivo foi observar modelos de gestão, conversar com quem atua diretamente no setor, conhecer empreendimentos e identificar práticas que possam servir de referência para o fortalecimento da AITUR e para o desenvolvimento do turismo em Itaiópolis.
| Missão técnica | Informações |
|---|---|
| Período | 19 a 21 de agosto |
| Destino | Serra Gaúcha – Rio Grande do Sul |
| Municípios visitados | Caxias do Sul, Flores da Cunha e Farroupilha |
| Representantes da AITUR | Edilaine Reinart e Áurea Lis |
| Sebrae | Cíntia Mara |
| Projeto | Rota Encantos do Planalto Norte – Grupo 2026 |
| Principais áreas observadas | Turismo rural, enoturismo, gastronomia, cultura, patrimônio, artesanato e experiências turísticas |
Serra Gaúcha como laboratório de experiências
A escolha da Serra Gaúcha permitiu ao grupo observar um território no qual diferentes atividades econômicas, culturais e históricas passaram a integrar a oferta turística.
Vinícolas, propriedades rurais, gastronomia, arquitetura, religiosidade, memória da imigração, produção artesanal e paisagens não aparecem necessariamente de forma isolada. Quando organizados em roteiros e experiências, esses elementos ajudam a construir a identidade do destino e ampliam as possibilidades oferecidas ao visitante.
Esse conceito é particularmente relevante para municípios que buscam desenvolver o turismo a partir de características próprias. Para Itaiópolis, a reflexão encontra terreno fértil. O município possui patrimônio histórico, comunidades rurais, manifestações religiosas e culturais, gastronomia, produção agrícola, paisagens e tradições que podem ser articuladas de maneira cada vez mais estruturada.
A missão permitiu justamente observar como outros territórios transformaram elementos que fazem parte de sua própria história e cotidiano em experiências capazes de despertar o interesse turístico.
Gestão pública: turismo exige planejamento e articulação
Um dos compromissos da missão ocorreu em Caxias do Sul, onde o grupo foi recebido por Felipe Gremelmaier, secretário municipal de Turismo e Desenvolvimento Econômico. Participaram do encontro Edilaine Reinart e Áurea Lis, representando a diretoria da AITUR, além de Cíntia Mara, representante do Sebrae. A conversa possibilitou conhecer aspectos do modelo de gestão adotado pelo município e discutir estratégias relacionadas ao planejamento e ao desenvolvimento da atividade turística.
O encontro também colocou em evidência um ponto fundamental: o turismo dificilmente se desenvolve de maneira sustentável quando cada participante trabalha isoladamente. Poder público, associações, empresários, produtores rurais, artesãos, estabelecimentos gastronômicos, meios de hospedagem, entidades e comunidade precisam estar inseridos em uma estratégia de desenvolvimento que estabeleça objetivos e permita a criação de produtos complementares.
Para a AITUR, conhecer a experiência de Caxias do Sul representou uma oportunidade de observar como essa articulação pode ser construída e qual é o papel desempenhado pelas organizações representativas do setor.
Galópolis: quando a história de uma comunidade se transforma em turismo
Entre as experiências conhecidas durante a missão, Galópolis, em Caxias do Sul, ganhou atenção especial dos representantes da AITUR. O distrito oferece um exemplo interessante de como patrimônio, memória, cultura e participação comunitária podem fazer parte de uma mesma proposta de desenvolvimento turístico.
No Instituto Hércules Galló, o grupo conheceu o trabalho realizado no território, incluindo o plano turístico e territorial de Galópolis e o processo de formação da Associação Turística Galópolis Tecendo Histórias. O modelo despertou interesse principalmente pelo associativismo.
Em vez de tratar isoladamente cada empreendimento ou atrativo, a proposta busca integrar diferentes componentes da comunidade e construir uma narrativa territorial. História, patrimônio arquitetônico, gastronomia, moradores, empreendedores e identidade cultural passam a formar partes de uma experiência maior. Durante a passagem por Galópolis, o grupo conheceu ainda a Vila Operária, o antigo lanifício, a igreja, a praça, o Círculo Operário e outros elementos relacionados à formação histórica da comunidade.
São espaços que, além de seu valor individual, ajudam a contar uma história. Essa percepção é importante no turismo contemporâneo: muitas vezes, o visitante não procura apenas um lugar para fotografar. Ele deseja compreender por que aquele lugar existe, quem viveu ali, quais tradições permanecem e o que diferencia aquela comunidade de qualquer outra.
O associativismo como ferramenta de desenvolvimento
A experiência de Galópolis dialoga diretamente com a própria razão de existir da AITUR. Uma associação de turismo pode exercer a função de aproximar empreendedores que, individualmente, oferecem serviços diferentes, mas que, juntos, ajudam a formar um destino. Uma propriedade rural pode receber visitantes. Um restaurante oferece gastronomia. Um artesão transforma a cultura local em produto. Uma igreja ou construção histórica preserva memória. Um evento movimenta a comunidade. Um guia apresenta o território.
Separadamente, são atividades distintas. Integradas, podem formar uma experiência turística. É justamente essa integração que permite pensar em roteiros capazes de fazer o visitante circular pelo município, consumir produtos locais, conhecer diferentes atrativos e, principalmente, permanecer mais tempo no destino.
Quanto maior a permanência, maiores tendem a ser as oportunidades de movimentação econômica em alimentação, hospedagem, comércio, artesanato, serviços e demais atividades ligadas direta ou indiretamente ao turismo.
Enoturismo e turismo rural: o produto é também a experiência
A programação técnica incluiu visitas a empreendimentos relacionados ao enoturismo e ao turismo rural, entre eles Família Boff, Vinícola Cappelletti, Casa Perini e Colônia Muraro. As visitas possibilitaram observar como atividades produtivas podem ganhar uma segunda dimensão quando passam a incorporar a experiência turística.
No caso de uma vinícola, por exemplo, o visitante não precisa apenas comprar uma garrafa de vinho. Ele pode conhecer a propriedade, compreender o processo produtivo, ouvir a história da família, participar de degustações e estabelecer uma relação com a origem daquele produto. O mesmo princípio pode ser aplicado a diferentes atividades rurais.
É a passagem da simples comercialização de um produto para a oferta de uma experiência vinculada ao território. Para regiões com forte presença rural, como Itaiópolis e o Planalto Norte catarinense, esse modelo abre possibilidades importantes. Produção agrícola, culinária, propriedades familiares, saberes tradicionais e paisagens rurais podem, quando adequadamente estruturados, compor produtos turísticos sem perder sua autenticidade.
Gastronomia também conta a história de um lugar
Outro aspecto observado durante a missão foi a gastronomia. Na atividade turística, comer não representa apenas uma necessidade do viajante. A alimentação pode ser parte central da experiência. Receitas tradicionais, produtos produzidos no próprio território, histórias familiares e formas específicas de preparo ajudam a construir a identidade de uma região.
É por isso que destinos consolidados frequentemente associam sua imagem a determinados alimentos, bebidas ou tradições gastronômicas. O aprendizado para Itaiópolis está justamente em olhar para aquilo que já existe no município e identificar o que possui capacidade de contar uma história ao visitante.
Nem sempre é necessário criar algo completamente novo. Muitas vezes, o desenvolvimento turístico começa pela organização, qualificação e apresentação daquilo que a própria comunidade já possui.
Artesanato: cultura, identidade e geração de renda
A missão também conheceu o trabalho da Associação Caxiense dos Artesãos – ASCART. A entidade reúne artistas e artesãos e atua tanto na valorização cultural quanto na geração de renda e comercialização da produção artesanal. O artesanato possui uma função particular dentro de um destino turístico porque pode materializar a lembrança de uma viagem.
Quando está conectado à identidade local, deixa de ser apenas um objeto e passa a carregar elementos da cultura, da história ou das tradições do território. Para uma associação turística, aproximar artesãos dos demais integrantes da cadeia do turismo pode ampliar os pontos de comercialização e incorporar esses produtos a eventos, roteiros, empreendimentos e experiências.
Patrimônio não precisa ser apenas contemplado
Museus, espaços de memória e atrativos culturais também fizeram parte da missão. A experiência reforçou uma tendência importante na estruturação de destinos: patrimônio histórico não precisa ser apresentado apenas como algo para ser observado. Informação, interpretação, histórias, personagens e experiências podem tornar a visita mais envolvente.
Uma construção histórica, por exemplo, ganha outro significado quando o turista conhece quem a construiu, em que contexto, como as pessoas viviam naquele período e de que maneira aquele imóvel se relaciona com a história da cidade. Esse tipo de abordagem pode ser especialmente relevante para Itaiópolis, onde patrimônio, religiosidade, formação étnico-cultural e comunidades tradicionais constituem elementos importantes da identidade municipal.
O desafio de fazer o turista permanecer mais tempo
Um dos principais aprendizados levados pela AITUR está relacionado ao tempo de permanência do visitante. Atrair uma pessoa para conhecer determinado ponto é apenas uma etapa do processo. Um destino mais estruturado precisa oferecer razões para que esse visitante continue sua viagem dentro do próprio município.
Na prática, a lógica pode ser representada assim:
Atrativo → experiência → gastronomia → compras → outro atrativo → hospedagem → maior permanência no destino
Quanto mais conectadas estiverem essas atividades, maior é a possibilidade de distribuição dos benefícios econômicos do turismo. Uma pessoa que permanece apenas algumas horas tem um padrão de consumo. Já aquela que encontra atividades para um dia inteiro ou mais pode utilizar restaurantes, adquirir produtos, visitar propriedades, comprar artesanato e eventualmente utilizar meios de hospedagem. Por isso, organizar o turismo significa também criar conexões entre aquilo que o território já oferece.
O que pode servir de referência para Itaiópolis
A missão não significa simplesmente reproduzir em Itaiópolis modelos encontrados na Serra Gaúcha. Cada território possui características próprias, e uma estratégia turística eficiente precisa respeitar sua identidade. O valor de uma missão técnica está justamente em conhecer soluções, compreender processos e adaptar aprendizados à realidade local.
Entre os principais pontos observados pela AITUR estão:
| Aprendizado | Possível aplicação no desenvolvimento local |
|---|---|
| Fortalecimento do associativismo | Maior integração entre empreendedores e atrativos |
| Valorização da identidade | Utilizar história, cultura e tradições como diferenciais |
| Integração dos segmentos | Conectar turismo rural, gastronomia, patrimônio, eventos e artesanato |
| Experiências turísticas | Ir além da visitação e proporcionar vivências ao turista |
| Articulação público-privada | Aproximar associação, empreendedores, comunidade e poder público |
| Permanência do visitante | Criar roteiros e atividades complementares |
| Organização territorial | Estruturar produtos que possam ser divulgados conjuntamente |
| Valorização da produção local | Incorporar produtos, gastronomia e artesanato à experiência turística |
Conhecimento que volta para o município
Ao retornar da Serra Gaúcha, a AITUR traz mais do que uma relação de lugares visitados. A principal contribuição da missão está no conhecimento acumulado, nas conexões estabelecidas e na possibilidade de analisar, a partir de exemplos concretos, quais caminhos podem ser construídos em Itaiópolis. O desenvolvimento turístico é um processo de médio e longo prazo. Envolve estruturação, capacitação, identidade, divulgação, infraestrutura e, especialmente, participação das pessoas que vivem e empreendem no território.
Nesse cenário, o associativismo aparece como uma das ferramentas capazes de conectar diferentes iniciativas em torno de objetivos comuns. A missão técnica promovida pelo Sebrae, dentro do projeto Rota Encantos do Planalto Norte – Grupo 2026, representa mais um passo da AITUR na busca por referências, parcerias e conhecimento para fortalecer sua atuação. Mais do que transformar Itaiópolis em uma cópia de destinos já consolidados, o desafio é utilizar essas referências para reconhecer e organizar aquilo que o município possui de próprio.
Porque, no turismo, identidade é um ativo: quanto mais um destino consegue transformar sua história, sua cultura, sua produção e o modo de vida de sua população em experiências autênticas, maiores são as possibilidades de construir uma atividade turística consistente e capaz de gerar benefícios para a própria comunidade.
Por Demais FM
