A disputa por duas vagas de Santa Catarina no Senado Federal ganhou um capítulo importante na noite deste domingo (23), quando cinco candidatos estiveram frente a frente em um debate promovido pela NSC Total, CBN Floripa e CBN Joinville. Durante aproximadamente duas horas, os concorrentes apresentaram propostas, confrontaram posições e expuseram diferenças ideológicas que devem marcar a campanha eleitoral de 2026.
Participaram do encontro Afrânio Boppré (PSOL), Décio Lima (PT), Esperidião Amin (PP), Jeferson Rocha (PRD) e Antídio Lunelli (MDB). O debate foi mediado pelo apresentador da NSC Raphael Faraco e contou com a participação dos colunistas Ânderson Silva, Renato Igor e Jefferson Saavedra.
A ausência, porém, também entrou no debate político. Carlos Bolsonaro e Carol de Toni, ambos do PL, não participaram do encontro. Os dois haviam sido convidados dentro dos critérios estabelecidos pela legislação eleitoral para debates, que considera candidatos de partidos, federações ou coligações com pelo menos cinco representantes no Congresso Nacional.
Mais do que apresentar propostas, o encontro serviu para deixar evidente a divisão do cenário eleitoral catarinense entre diferentes campos políticos. Enquanto Afrânio e Décio assumiram posições claramente alinhadas ao campo progressista e ao governo Lula, Jeferson Rocha se apresentou como candidato de direita. Amin adotou uma postura crítica em relação a instituições nacionais e ao sistema político, enquanto Lunelli buscou reforçar uma imagem ligada à gestão e às pautas de interesse direto de Santa Catarina.
Debate foi dividido em quatro blocos
O encontro foi estruturado em quatro etapas.
No primeiro bloco, os próprios candidatos fizeram perguntas uns aos outros sobre temas livres. Entraram em discussão assuntos como carga tributária, relação de Santa Catarina com o governo federal, concentração de mercado, tarifas impostas pelos Estados Unidos e saúde pública. No segundo bloco, os candidatos responderam aos questionamentos dos jornalistas e colunistas sobre os temas considerados prioritários pelos eleitores catarinenses no projeto SC Ainda Melhor.
Entre os assuntos estavam a escala de trabalho 6×1, educação, utilização de emendas parlamentares, combate ao crime organizado e infraestrutura.
O terceiro bloco colocou novamente os candidatos em confronto direto, desta vez com perguntas sorteadas sobre temas previamente definidos. Foram discutidos segurança pública, recursos de emendas destinados a Santa Catarina, saneamento básico, violência contra a mulher e regulamentação das apostas esportivas, as chamadas bets.
No último bloco, os colunistas voltaram a questionar os candidatos sobre temas livres. A conversa passou por reforma tributária, expansão ferroviária, feminicídios, mudanças no pacto federativo e atendimento pelo Sistema Único de Saúde (SUS). O resultado foi um debate que ultrapassou a apresentação de propostas administrativas e entrou diretamente em questões ideológicas e institucionais que devem ocupar espaço importante na eleição.
Afrânio Boppré aposta no alinhamento com Lula e confronta o bolsonarismo
Representante do PSOL, Afrânio Boppré utilizou boa parte de sua participação para deixar claro seu posicionamento político e sua proximidade com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva. O candidato afirmou ser “do time do Lula” e apresentou a disputa ao Senado como uma escolha entre diferentes projetos políticos para o país. Boppré também atacou a ausência dos candidatos do PL, associando a falta ao campo bolsonarista e criticando a possibilidade de Santa Catarina eleger nomes de fora do Estado.
A estratégia do candidato foi, portanto, bastante clara: ocupar o espaço da esquerda catarinense, defender o governo federal e transformar a eleição para o Senado em uma disputa também sobre democracia, bolsonarismo e projeto nacional.
Décio Lima tenta transformar debate em discurso de valores
Décio Lima, do PT, adotou uma linha diferente, embora também tenha reafirmado seu alinhamento com o governo Lula. Em sua avaliação, o debate deveria servir como momento de reflexão para o eleitor catarinense. O candidato buscou associar sua campanha a conceitos como solidariedade, democracia, resiliência e defesa de políticas públicas. Décio também criticou a disseminação de fake news e classificou a política como instrumento capaz de produzir resultados concretos na vida da população.
Seu discurso procurou apresentar a candidatura não apenas como uma disputa partidária, mas como uma escolha de valores.
Amin leva ao debate críticas ao STF, corrupção e impunidade
Mais experiente entre os candidatos, Esperidião Amin aproveitou o espaço para inserir temas nacionais que, segundo ele, não receberam a atenção necessária durante o debate. O candidato do PP criticou decisões e condutas atribuídas a integrantes do Supremo Tribunal Federal, mencionando especificamente questões relacionadas à liberdade de imprensa e ao sigilo de fonte.
Amin também trouxe para o centro da discussão o combate à corrupção e a percepção de desigualdade na aplicação das punições. Ao citar casos envolvendo pessoas condenadas e outras posteriormente colocadas em liberdade, o candidato buscou reforçar uma de suas bandeiras tradicionais: a necessidade de maior rigor e coerência no enfrentamento à corrupção e à impunidade. Para Amin, o debate teve bom resultado quando tratou dos interesses de Santa Catarina, mas deixou temas nacionais relevantes para serem aprofundados durante a campanha.
Jeferson Rocha se apresenta como opção da direita
Jeferson Rocha, do PRD, utilizou o debate para marcar posição ideológica. O candidato afirmou abertamente que representa a direita e destacou que um dos principais objetivos de debates eleitorais é permitir ao eleitor identificar não apenas as propostas, mas também o posicionamento político de cada candidato.
Sua estratégia foi apresentar-se como uma alternativa dentro do campo da direita catarinense, defendendo a necessidade de o eleitor fazer uma escolha consciente. Ao pedir o voto para o número 250, Rocha encerrou sua participação reforçando o discurso de colocar Santa Catarina como prioridade.
Lunelli destaca democracia e lamenta ausência dos candidatos do PL
Antídio Lunelli, do MDB, classificou o debate como positivo e destacou a importância de colocar os candidatos frente a frente. Com discurso mais voltado à participação democrática e às questões estaduais, Lunelli afirmou que os debates permitem que o eleitor conheça melhor os concorrentes e que os próprios candidatos também aprendam com as discussões.
O emedebista, entretanto, fez questão de lamentar a ausência de Carlos Bolsonaro e Carol de Toni. Para Lunelli, o ideal seria que todos os candidatos ao Senado estivessem presentes, permitindo ao eleitor comparar diretamente as propostas e posições de cada concorrente.
O que o debate revelou sobre a eleição
Mais do que as propostas individuais, o encontro deixou algumas tendências claras sobre a disputa pelo Senado em Santa Catarina.
A primeira é a forte presença da disputa ideológica. A eleição não deverá se limitar a debates sobre infraestrutura, saúde ou economia. A relação com o governo Lula, o bolsonarismo, o Supremo Tribunal Federal, corrupção e democracia também devem ocupar espaço relevante na campanha.
A segunda é a importância das pautas estaduais. Infraestrutura, ferrovias, saneamento, saúde, segurança e recursos federais aparecem entre as principais preocupações dos candidatos, mostrando que a disputa pelo Senado também será apresentada como uma eleição sobre a capacidade de Santa Catarina negociar recursos e interesses em Brasília.
A terceira é a utilização das emendas parlamentares. O tema ganhou destaque porque o Senado exerce papel relevante na articulação política e na fiscalização dos recursos públicos. Para o eleitor, a discussão coloca em evidência uma pergunta central: como os futuros senadores pretendem utilizar sua influência para garantir investimentos ao Estado?
A quarta é a divisão do eleitorado de direita. Com a ausência dos dois candidatos do PL no debate, os demais concorrentes tiveram espaço para apresentar suas posições sem o confronto direto com os nomes associados ao bolsonarismo.
Essa ausência, porém, não retirou o tema do centro da discussão. Pelo contrário: o bolsonarismo foi citado diversas vezes pelos participantes, mesmo sem a presença de seus principais representantes na disputa.
Duas vagas tornam a disputa ainda mais estratégica
Em 2026, Santa Catarina elegerá dois senadores. Isso muda completamente a dinâmica da campanha. Diferentemente da disputa para deputado, governador ou prefeito, na qual existe apenas uma vaga majoritária em jogo, a eleição para o Senado permite que o eleitor escolha dois nomes.
Na prática, isso significa que candidatos de diferentes campos políticos podem disputar simultaneamente o mesmo eleitor. Um eleitor de centro-direita, por exemplo, poderá optar por dois candidatos diferentes. O mesmo pode ocorrer entre eleitores de esquerda ou entre aqueles que priorizam nomes ligados à defesa de pautas estaduais.
Por isso, a capacidade de construir uma segunda opção dentro de diferentes grupos políticos pode ser decisiva para o resultado.
A ausência também virou assunto eleitoral
A decisão de Carlos Bolsonaro e Carol de Toni de não participar do debate certamente terá repercussão ao longo da campanha.
Para os adversários, a ausência representa uma oportunidade de questionar o compromisso dos candidatos com o confronto público de ideias. Para os próprios candidatos do PL, a estratégia pode ser interpretada como uma escolha política de campanha. O eleitor, porém, terá a oportunidade de avaliar os argumentos dos dois lados. Em uma eleição marcada por forte polarização nacional, a participação — ou não participação — em debates também passa a fazer parte da própria estratégia eleitoral.
O eleitor agora terá de separar discurso de proposta
O debate mostrou que os candidatos têm visões bastante diferentes sobre o papel de um senador. Há quem priorize a relação com o governo federal. Há quem coloque a oposição ao STF e o combate à corrupção no centro da agenda. Há quem enfatize a defesa de pautas econômicas e estaduais. E há quem procure se apresentar como representante de um determinado campo ideológico. Para o eleitor catarinense, o desafio será ir além das frases de efeito.
O Senado não é apenas uma tribuna política. O senador participa da elaboração e votação de leis, analisa projetos de interesse nacional, fiscaliza o governo federal, participa de decisões sobre autoridades e exerce papel fundamental no equilíbrio institucional da República.
Por isso, a campanha que começa a ganhar forma exigirá do eleitor mais do que escolher entre nomes conhecidos. Será necessário observar o que cada candidato defende, como pretende votar, quais prioridades apresenta para Santa Catarina e, principalmente, se existe coerência entre o discurso de campanha e sua trajetória política.
O debate deste domingo foi apenas um dos primeiros grandes confrontos da eleição. Mas já deixou uma mensagem clara: a corrida pelas duas cadeiras de Santa Catarina no Senado promete ser uma das disputas mais estratégicas e ideologicamente acirradas das Eleições 2026.
Por Demais FM / NSC Total
