Uma das empresas mais tradicionais do setor moveleiro de Santa Catarina chegou ao fim de um ciclo de 55 anos. A Justiça decretou, nesta segunda-feira (10), a falência da Três Irmãos, indústria fundada em 1971 em Campo Alegre, no Planalto Norte catarinense.
A decisão determina o lacre da matriz e das filiais, a arrecadação dos bens e documentos, a avaliação do patrimônio e, posteriormente, a venda dos ativos para pagamento dos credores. O tamanho do passivo impressiona: a dívida atualmente estimada é de aproximadamente R$ 133 milhões, mas o valor ainda poderá sofrer alterações durante o processo de falência. A empresa já estava com as atividades produtivas completamente paralisadas desde 14 de maio de 2026.
Uma trajetória que começou com uma pequena marcenaria
A história da Três Irmãos começou em Campo Alegre, em 1971, quando uma pequena marcenaria familiar fabricava carroças. Com o passar das décadas, a empresa mudou de perfil e passou a produzir móveis de madeira maciça, incluindo mesas, cadeiras e peças artesanais. A expansão transformou a indústria em uma das empresas relevantes do setor moveleiro catarinense. Um dos momentos de maior projeção internacional ocorreu em 2009, quando a empresa realizou sua primeira exportação para a sueca IKEA, uma das maiores companhias mundiais do setor de móveis.
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Em 2016, a Três Irmãos ampliou sua estrutura com a aquisição de uma unidade industrial em Caçador. A fábrica chegou a processar aproximadamente 15 mil toneladas de madeira por mês e recebeu investimentos em automação, equipamentos e sistemas de gestão.
Em 2020, a companhia inaugurou ainda um parque industrial de mais de 16 mil metros quadrados em São Bento do Sul. A unidade, entretanto, acabou fechada em maio de 2023.
| Marco | Informação |
|---|---|
| Fundação | 1971 |
| Cidade de origem | Campo Alegre (SC) |
| Primeiro grande mercado | Móveis de madeira maciça |
| Primeira exportação para a IKEA | 2009 |
| Aquisição da unidade de Caçador | 2016 |
| Parque industrial em São Bento do Sul | Inaugurado em 2020 |
| Fechamento da unidade de São Bento do Sul | Maio de 2023 |
| Paralisação total da produção | 14 de maio de 2026 |
| Falência decretada | 10 de agosto de 2026 |
Da expansão à crise financeira
O processo de recuperação judicial da empresa começou em 2024, depois que a companhia passou a enfrentar dificuldades para manter suas operações e honrar os compromissos financeiros. Segundo as informações apresentadas no plano de recuperação, a crise começou a se aprofundar a partir de 2021, quando os problemas provocados pela pandemia afetaram fortemente a logística internacional.
A falta de contêineres, os atrasos nos portos e a dificuldade para obter matérias-primas aumentaram os custos e prejudicaram principalmente as empresas dependentes do mercado externo. Em determinado momento, o transporte marítimo de um contêiner teria chegado a aproximadamente US$ 10 mil, cerca de sete vezes o valor praticado antes da pandemia. Para uma indústria fortemente ligada às exportações, o impacto foi significativo.
Queda nas exportações e aumento dos custos
A situação se agravou entre 2022 e 2023, quando houve redução das vendas externas e aumento dos juros. O setor moveleiro catarinense também enfrentou aumento expressivo nos custos de produção, incluindo madeira, MDF, ferragens, colas, vernizes, energia, combustíveis e transporte. Segundo dados citados no plano de recuperação judicial, as exportações de móveis de Santa Catarina caíram 27,7% em 2023, na comparação com 2022.
| Fator | Impacto apontado no processo |
|---|---|
| Pandemia | Desorganização da cadeia logística internacional |
| Contêineres | Escassez e aumento do custo do transporte |
| Frete marítimo | Chegou a cerca de US$ 10 mil por contêiner |
| Exportações de móveis de SC | Queda de 27,7% em 2023 |
| Juros | Aumento do custo financeiro |
| Matérias-primas | Alta nos preços |
| Transporte e energia | Pressão sobre os custos de produção |
| Vendas externas | Redução da demanda |
A combinação desses fatores reduziu a capacidade de geração de receita da empresa e aumentou a pressão sobre o caixa.
A recuperação judicial surgiu como tentativa de reorganizar as finanças e preservar a atividade empresarial. O mecanismo, porém, não conseguiu impedir a deterioração da situação.
Por que a Justiça decretou a falência?
O pedido de falência havia sido apresentado pelo Ministério Público em junho de 2026. Na sentença, o juiz apontou uma série de descumprimentos que, segundo a decisão, demonstraram que a empresa não conseguiu cumprir as obrigações assumidas durante a recuperação judicial. Entre os problemas estão o inadimplemento de credores, com valores em aberto de aproximadamente R$ 210,3 mil e € 175,5 mil, além da ausência de comprovação sobre a destinação de aproximadamente R$ 3,25 milhões obtidos com a venda de ativos anteriormente autorizada.
Também foram apontados problemas tributários. Três parcelamentos de ICMS foram cancelados pelo Estado de Santa Catarina após o atraso de três ou mais parcelas. A empresa também apresentava débitos perante a Receita Federal.
Outro ponto considerado grave: o patrimônio
A sentença também menciona o chamado “esvaziamento patrimonial”. Segundo o processo, houve retirada acelerada e sem autorização judicial de maquinários de grande porte da sede da empresa. A paralisação completa das atividades produtivas em maio e a situação encontrada na matriz também foram consideradas pelo Judiciário.
| Situação apontada na sentença | Valor ou informação |
|---|---|
| Dívida estimada | R$ 133 milhões |
| Credores com saldos apontados | R$ 210.318,13 + € 175.581,42 |
| Recursos provenientes de alienação de ativos | R$ 3,25 milhões |
| Funcionários registrados até abril | Cerca de 301 |
| Paralisação total | Desde 14/05/2026 |
O que acontece agora?
Com a decretação da falência, o próximo passo é preservar o patrimônio que ainda existe. A Justiça determinou que a matriz, em Campo Alegre, e a unidade de Caçador sejam lacradas. A Administração Judicial deverá acompanhar a diligência e realizar o levantamento dos bens.
Imóveis, máquinas, equipamentos e outros ativos poderão ser rastreados e bloqueados para evitar novas movimentações patrimoniais. A administradora judicial terá 60 dias, depois de assumir formalmente a função na falência, para apresentar um plano detalhado de realização dos ativos. Esse planejamento deverá prever uma estimativa de prazo de até 180 dias para a venda dos bens. Também deverá ser apresentado, em até 40 dias, um relatório sobre as causas da falência e eventuais responsabilidades civis e penais relacionadas à quebra.
Credores ainda podem contestar os valores
Os R$ 133 milhões divulgados como passivo não representam necessariamente o valor definitivo da dívida. A empresa deverá apresentar, em cinco dias, uma relação de credores em formato de planilha eletrônica. Caso isso não aconteça, será utilizada a relação já elaborada pela Administração Judicial. Depois disso, os credores terão 15 dias para contestar os valores. Ou seja: o tamanho final do rombo ainda será definido no decorrer do processo.
Uma empresa que já chegou a ter 500 trabalhadores
O impacto da falência vai além dos números financeiros. Em seu período de maior expansão, a Três Irmãos chegou a empregar aproximadamente 500 trabalhadores, considerando empregos diretos e a movimentação relacionada à cadeia produtiva. Até abril de 2026, a Administração Judicial informou que havia cerca de 301 funcionários, entre ativos e afastados, considerando a matriz de Campo Alegre e a unidade de Caçador.
Ainda não há, porém, um número definitivo sobre quantos trabalhadores foram desligados ou se ainda existem funcionários ativos. O encerramento da trajetória da Três Irmãos representa, portanto, não apenas a quebra de uma empresa de R$ 133 milhões em dívidas, mas também o desaparecimento de uma indústria que durante décadas fez parte da história econômica do Planalto Norte de Santa Catarina.
De uma pequena marcenaria que fabricava carroças em 1971 a uma indústria que exportava móveis para uma das maiores empresas do mundo, a Três Irmãos encerra uma história de 55 anos agora sob o peso de uma dívida milionária e de uma falência que ainda terá muitos capítulos na Justiça.
Por Demais FM / Com informações NSC TV
