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O saco sem fundo das eleições: R$ 4,96 bilhões de dinheiro público para financiar campanhas em 2026

Foto: Gerada por IA

As eleições de 2026 terão R$ 4,961 bilhões disponíveis no Fundo Especial de Financiamento de Campanha (FEFC), conhecido como Fundo Eleitoral. O dinheiro é público e foi destinado pela União para financiar as campanhas eleitorais deste ano. O valor foi confirmado oficialmente pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE).

É uma cifra que, sozinha, já deveria provocar uma discussão nacional sobre o tamanho da estrutura financeira necessária para realizar uma eleição.

Não se trata de afirmar que candidatos não precisam de dinheiro para fazer campanha. Precisam. Comunicação, produção de conteúdo, deslocamentos, contratação de equipes, serviços gráficos, eventos, publicidade e uma série de outras despesas fazem parte de uma campanha eleitoral.

O ponto central é outro: quanto dinheiro público é razoável utilizar para financiar uma disputa política?

Quase R$ 5 bilhões saem do orçamento público

O FEFC é formado por dotações orçamentárias da União em anos eleitorais. Na prática, portanto, trata-se de dinheiro público que entra no sistema partidário para financiar campanhas. Em 2026, são exatamente R$ 4.961.519.777.

O valor não é entregue diretamente pelo governo aos candidatos.

Primeiro, os recursos são distribuídos aos partidos políticos conforme critérios estabelecidos pela legislação. Depois, cada legenda define internamente como distribuir sua parcela entre suas candidaturas, respeitando as regras eleitorais. E é justamente aí que aparece um dos pontos mais importantes — e menos conhecidos — dessa discussão.

Até partido sem bancada recebe dinheiro

A distribuição do Fundo Eleitoral não depende exclusivamente do tamanho de um partido no Congresso.

A legislação estabelece quatro critérios:

  • 2% do fundo são divididos igualmente entre todos os partidos com estatuto registrado no TSE;
  • 35% são distribuídos conforme os votos obtidos pelos partidos na última eleição para a Câmara dos Deputados;
  • 48% consideram o número de representantes eleitos para a Câmara;
  • 15% levam em conta a representação dos partidos no Senado.

Em 2026, existem 30 legendas consideradas na distribuição.

Isso significa que a parcela mínima correspondente aos 2% representa aproximadamente R$ 3,31 milhões por partido.

Ou seja: mesmo uma legenda sem representação no Congresso recebe essa parcela igualitária. O valor exato calculado pelo TSE é de R$ 3.307.679,85. É uma característica prevista na legislação. Não há, nesse mecanismo específico, qualquer irregularidade.

Mas existe uma pergunta política legítima:

faz sentido utilizar dinheiro público para garantir milhões de reais a uma legenda que praticamente não possui representação parlamentar?

Essa é uma discussão sobre o modelo, não sobre a legalidade da distribuição.

Os maiores partidos ficam com centenas de milhões

A diferença cresce quando entram os critérios relacionados à votação e à representação parlamentar.

O PL recebeu aproximadamente R$ 881,7 milhões.

O PT ficou com cerca de R$ 615,4 milhões.

O União Brasil recebeu aproximadamente R$ 526,2 milhões.

Somadas, as três legendas concentram aproximadamente 40% de todo o Fundo Eleitoral de 2026.

Isso revela outra característica do modelo: quanto maior a representação política acumulada pelo partido, maior tende a ser sua participação no financiamento público das eleições. É um sistema desenhado para combinar igualdade mínima entre as legendas com critérios de representatividade eleitoral e parlamentar. A pergunta que permanece é se esse desenho é o mais adequado para o país.

A justificativa é fortalecer a democracia

Há um argumento importante em defesa do financiamento público. As campanhas eleitorais precisam de recursos.

Além disso, desde a proibição das doações empresariais, o financiamento das campanhas passou a depender principalmente de recursos públicos, doações de pessoas físicas e outras modalidades permitidas pela legislação.

O financiamento público também busca reduzir a dependência das candidaturas em relação a grandes financiadores privados e tornar mais transparente a origem dos recursos.

Portanto, simplesmente dizer que “dinheiro público não deveria ser utilizado em eleições” não encerra o debate.

A questão é mais complexa.

Se o financiamento público existe para garantir condições mínimas de disputa e reduzir determinadas formas de influência econômica privada, é necessário perguntar também se R$ 4,96 bilhões representam um valor proporcional à finalidade pretendida.

E depois dos bilhões vêm as “vaquinhas”

Existe ainda outro mecanismo legal de arrecadação: o financiamento coletivo, popularmente conhecido como “vaquinha eleitoral”.

Desde 15 de maio, pré-candidatos podem iniciar arrecadações por meio de plataformas autorizadas pela Justiça Eleitoral, respeitando uma série de regras. O eleitor pode contribuir.

Mas não é uma arrecadação sem controle.

As doações precisam ser identificadas, com nome e CPF do doador, valor, forma de pagamento e data. As informações também precisam ser encaminhadas à Justiça Eleitoral e posteriormente constar da prestação de contas.  As doações de pessoas físicas também podem ocorrer por meios como Pix e transferência bancária, obedecendo aos limites e às regras estabelecidas pela Justiça Eleitoral.

Portanto, não há irregularidade simplesmente porque um candidato possui Fundo Eleitoral e também realiza uma vaquinha. São mecanismos diferentes e legalmente previstos.

Mas, para o eleitor, surge uma situação que merece reflexão.

O eleitor financia duas vezes?

Primeiro, o cidadão paga impostos. Parte do orçamento público é destinada ao financiamento das eleições. Depois, o mesmo cidadão pode receber mensagens nas redes sociais, vídeos e pedidos para contribuir voluntariamente com determinada candidatura. São duas coisas juridicamente distintas. Uma é dinheiro público destinado aos partidos. A outra é uma contribuição voluntária de uma pessoa física. Mas existe uma conexão econômica inevitável: nos dois casos, dinheiro chega à campanha eleitoral.

E é justamente essa combinação que torna a discussão sobre o custo das eleições ainda mais relevante.

A tecnologia barateou a campanha. O sistema ficou mais barato?

Aqui está talvez uma das perguntas mais importantes. Há algumas décadas, alcançar milhares ou milhões de eleitores exigia televisão, rádio, material impresso, grandes estruturas físicas, equipes numerosas e uma logística muito mais cara. Hoje, um candidato pode gravar um vídeo com um celular, publicar nas redes sociais e atingir milhares de pessoas.

Podcasts, transmissões ao vivo, entrevistas, redes sociais e plataformas digitais ampliaram drasticamente as possibilidades de comunicação direta entre candidatos e eleitores. A tecnologia reduziu o custo de determinadas formas de comunicação. Mas o financiamento eleitoral continua movimentando bilhões. E isso não significa necessariamente que exista desperdício. Uma campanha moderna continua tendo custos relevantes e existem despesas que não desaparecem com a internet. Mas a mudança tecnológica permite uma pergunta que raramente aparece no centro do debate: se ficou mais barato chegar ao eleitor, por que o financiamento eleitoral continua exigindo cifras tão elevadas?

O problema não é a democracia. É o tamanho da conta

É importante separar as coisas. Questionar o tamanho do Fundo Eleitoral não significa defender o fim das eleições. Questionar gastos de campanha não significa defender uma disputa eleitoral sem estrutura. Questionar o financiamento público não significa necessariamente defender o retorno das doações empresariais. E criticar o volume de recursos não significa acusar candidatos ou partidos de cometer irregularidades. O debate é anterior a tudo isso.

É sobre modelo, eficiência, prioridade e custo.

O TSE manteve para 2026 os mesmos limites de gastos de campanha utilizados nas eleições de 2022, justamente porque o Fundo Eleitoral permaneceu no mesmo patamar de aproximadamente R$ 4,9 bilhões. Portanto, o país não está diante de um detalhe contábil. Está diante de um sistema eleitoral que movimenta bilhões de reais de recursos públicos em um único ciclo eleitoral.

A pergunta que fica

A democracia custa dinheiro. Isso é inevitável.

Mas não existe uma regra natural dizendo quanto a democracia precisa custar.

Esse número é resultado de decisões políticas, leis, critérios de distribuição e escolhas feitas ao longo do tempo. Por isso, a discussão deveria ir além do tradicional debate entre “fundo eleitoral sim” ou “fundo eleitoral não”. A pergunta mais difícil é:

qual é o valor necessário para garantir uma eleição competitiva, transparente e democrática sem transformar o financiamento eleitoral em um saco sem fundo?

Em 2026, são quase R$ 5 bilhões de dinheiro público destinados às campanhas. E, paralelamente, candidatos podem pedir contribuições diretamente aos eleitores. Tudo dentro da lei. É justamente por estar dentro da lei que a discussão precisa ser ainda mais séria. Porque a pergunta não é se o sistema é legal.

A pergunta é se, para o cidadão que paga a conta, ele é eficiente, proporcional e sustentável.

Por Demais FM / com informações DMA Notícias

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