“Santa Catarina novamente está sendo desrespeitada”, foi assim que o advogado e jornalista Ely Silveira, candidato a deputado estadual pelo NOVO, iniciou sua manifestação na audiência pública realizada nesta sexta-feira (31), em Florianópolis, pela Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT).
O encontro discutiu a futura concessão da Malha Sul Ferroviária, conjunto de linhas utilizado para o transporte de cargas no Paraná, em Santa Catarina e no Rio Grande do Sul. A modelagem ajudará a definir os trechos contemplados, os investimentos exigidos e as condições de exploração da rede nas próximas décadas.
A concessão atual abrange 7.223 quilômetros de ferrovias. A nova modelagem compreende aproximadamente 4.247 quilômetros, divididos entre os corredores Paraná–Santa Catarina, Mercosul e Rio Grande.
Durante sua manifestação, Ely Silveira chamou a atenção para a dimensão dessa redução.
“O Sul está perdendo cerca de 40% da sua malha ferroviária com essa proposta, estamos saindo de mais de 7 mil quilômetros para pouco mais de 4 mil”, alertou.
Além da redução da extensão considerada na futura concessão, Ely Silveira criticou a ausência de estruturas que permitam às indústrias e aos produtores catarinenses utilizar efetivamente o transporte ferroviário.
“O setor produtivo catarinense está fora da proposta. O projeto reduz Santa Catarina a um corredor ferroviário, quando precisamos de condições efetivas para embarcar e escoar a nossa produção”, afirmou.
A partir dessa crítica, Ely Silveira apresentou quatro demandas para o planejamento ferroviário: a criação de pontos de embarque no Planalto Norte, a preservação da possibilidade de transporte regional de passageiros, a integração da malha aos portos catarinenses e a inclusão do Oeste em novos corredores de exportação.
Pontos de embarque para o Planalto Norte
Uma das principais reivindicações apresentadas por Ely Silveira foi a previsão de pontos de embarque no Planalto Norte, especialmente no eixo formado por São Bento do Sul e Rio Negrinho.
Os dois municípios são atravessados pela ferrovia e formam um importante polo industrial moveleiro, fortemente voltado ao mercado externo. No primeiro semestre de 2026, São Bento do Sul alcançou a liderança nacional nas exportações de cinco categorias de produtos, mas a produção regional ainda depende predominantemente do transporte rodoviário para chegar aos portos e a outros mercados.
“São Bento do Sul é líder nacional na exportação de pelo menos cinco produtos diferentes. Ao lado de Rio Negrinho, forma um polo industrial moveleiro fortemente voltado ao mercado externo. Não basta o trem atravessar nossa região: as empresas precisam ter condições de embarcar sua produção e utilizar a ferrovia”, defendeu.
A reivindicação busca evitar que os trilhos sejam utilizados apenas para transportar cargas embarcadas em outros estados ou regiões, sem produzir benefícios econômicos proporcionais para os municípios catarinenses atravessados pela malha, desafogando ainda a BR 280 e a SC 418.
Transporte regional de passageiros
Ely Silveira também defendeu que a nova concessão preserve a possibilidade de utilização futura da linha para o transporte regional de passageiros.
O prefeito de Corupá, Eddy Eipper, e o vice-prefeito de Jaraguá do Sul, João Pereira, reivindicaram a implantação de um serviço ferroviário de passageiros entre os municípios da região. Ely Silveira apoiou a proposta e acrescentou que o planejamento deveria contemplar também a ligação entre São Bento do Sul e Mafra, passando por Rio Negrinho.
“É importante a reivindicação apresentada por Corupá e Jaraguá do Sul para o transporte regional de passageiros. Mas também precisamos olhar para uma ligação entre São Bento do Sul e Mafra, passando por Rio Negrinho. São municípios conectados pelos trilhos, e essa alternativa poderia atender moradores, trabalhadores e estudantes, além de ajudar a desafogar a BR-280, que hoje concentra grande parte do deslocamento regional de pessoas e mercadorias”, explicou.
A proposta não pressupõe que a concessionária responsável pelo transporte de cargas seja obrigada a operar diretamente o serviço de passageiros. A reivindicação é para que o edital e o contrato preservem as condições necessárias para uma futura utilização compartilhada da infraestrutura, inclusive por operador independente.
Ligação com Itapoá e os portos catarinenses
Outro ponto abordado foi a necessidade de ampliar a integração da Malha Sul com o sistema portuário catarinense.
Ely Silveira chamou a atenção para o crescimento do Porto Itapoá e para as dificuldades de acesso ao município. Segundo ele, uma futura ligação ferroviária com o terminal precisa fazer parte do planejamento logístico estadual e nacional.
“Não podemos esquecer o acesso a Itapoá. O porto está crescendo, movimentando cada vez mais cargas, e a dificuldade de acesso já preocupa toda a região. Uma concessão pensada para as próximas décadas precisa considerar essa expansão”, argumentou.
Ele também defendeu que o planejamento ferroviário contemple o Complexo Portuário de Itajaí e Navegantes. A região concentra intensa circulação de cargas e alguns dos trechos mais congestionados da BR-101 em Santa Catarina.
“Os portos de Itajaí, Navegantes e Itapoá não podem permanecer fora de um planejamento ferroviário de longo prazo. Além de fortalecer a capacidade de exportação do Estado, essa integração pode retirar caminhões do trecho de maior gargalo da BR-101”, afirmou.
Ely Silveira ressaltou que a ferrovia não substitui os investimentos necessários nas rodovias, mas pode contribuir para uma matriz de transportes mais equilibrada, reduzindo a dependência do modal rodoviário e ampliando a segurança e a competitividade econômica de Santa Catarina.
Oeste catarinense e novos corredores de exportação
A situação do Oeste catarinense também foi abordada durante a manifestação. A região concentra uma das mais importantes cadeias agroindustriais do país, especialmente na produção de suínos, aves e alimentos processados, mas continua sem uma conexão ferroviária para atender sua economia.
Há décadas são discutidos projetos para integrar o Oeste à malha ferroviária nacional e aos portos. Entre as propostas está o ramal da Nova Ferroeste entre Cascavel, no Paraná, e Chapecó, ligado ao corredor que se estende até Maracaju, em Mato Grosso do Sul.
Ely Silveira reconheceu o potencial desse projeto para transportar milho e outros insumos utilizados pela agroindústria catarinense, mas defendeu que o planejamento considere também o escoamento da produção industrializada no Oeste.
“Trazer milho e outros insumos para Chapecó é importante, mas esse é apenas um lado da equação. Santa Catarina transforma esses insumos em proteína e exporta sua produção. Por isso, a ferrovia também precisa oferecer alternativas para a saída dos produtos catarinenses”, observou.
A inclusão ferroviária do Oeste também poderia diminuir a pressão sobre a BR-282, principal corredor rodoviário entre a região e o litoral catarinense.
Além da ligação do Oeste com os portos de Santa Catarina, Ely Silveira sugeriu o estudo de uma futura extensão ferroviária entre Maracaju e Porto Murtinho, permitindo a integração com a Rota Bioceânica.
O corredor internacional ligará o Brasil aos portos do Oceano Pacífico, passando pelo Paraguai, pela Argentina e pelo Chile. Segundo ele, essa conexão poderia criar uma rota adicional para produtos catarinenses destinados à China e a outros mercados asiáticos.
“Precisamos conectar o Oeste aos portos catarinenses, mas também pensar em novas alternativas. Uma ligação entre Maracaju (MS) e Porto Murtinho (MS) poderia integrar a ferrovia à Rota Bioceânica e abrir outro caminho para a produção catarinense chegar aos mercados asiáticos”, explicou.
A proposta não substituiria a conexão ferroviária entre o Oeste e o litoral de Santa Catarina. Funcionaria como uma alternativa logística adicional, ampliando as possibilidades de acesso aos mercados internacionais e reduzindo a dependência de um único corredor de exportação.
Contribuições podem ser apresentadas até 10 de agosto
A audiência de Florianópolis encerrou uma série de quatro sessões públicas presenciais promovidas pela ANTT. As discussões começaram em Brasília e passaram por Curitiba e Porto Alegre antes de chegar à capital catarinense.
Durante os encontros, representantes do poder público, do setor produtivo, dos portos, de entidades e da sociedade civil puderam apresentar questionamentos e sugestões para o futuro da ferrovia na Região Sul.
O processo de participação pública, entretanto, permanece aberto, até 10 de agosto, qualquer cidadão, empresa, município ou entidade poderá encaminhar sugestões e documentos à Agência por meio do Sistema ParticipANTT.
Após o encerramento do prazo, as contribuições serão analisadas pela ANTT e poderão subsidiar o aperfeiçoamento da modelagem, do edital e do contrato da futura concessão da Malha Sul Ferroviária.
Para Ely Silveira, a próxima etapa será acompanhar se as reivindicações apresentadas por Santa Catarina serão consideradas.
“A audiência foi importante para registrar as demandas catarinenses, mas o resultado concreto virá depois. Precisamos acompanhar se aquilo que Santa Catarina apresentou será transformado em previsão no edital e no contrato. Não queremos apenas que a ferrovia passe pelo Estado; queremos que ela ajude a desenvolver nossa economia”, concluiu.
Por Demais FM / Informações Assessoria
