O alto endividamento, que atinge quase 80% das famílias brasileiras, é uma realidade preocupante no país. Diante deste cenário, o governo federal estuda permitir o uso do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS) para quitar dívidas, em uma medida que poderia liberar cerca de R$ 7 bilhões e beneficiar 10 milhões de pessoas através de um novo programa, o Desenrola 2.0.
Um alívio que pode custar caro
Especialistas em economia avaliam a proposta com preocupação. Juliana Inhasz, professora do Insper, afirma que usar o fundo com essa finalidade remove o “colchão de segurança” do trabalhador. A medida é vista como uma solução de curto prazo que não aborda a raiz do problema: o reendividamento. Nada garante que, após quitar os débitos, as pessoas não voltarão a se endividar, principalmente com a renda baixa da população.
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Para Tatiana Pinheiro, pesquisadora da FGV, o dinheiro liberado pode se transformar em novo consumo e, consequentemente, em novas dívidas, agravadas pelo patamar elevado dos juros. No Brasil, os juros do rotativo do cartão de crédito, por exemplo, chegam a 435,88% ao ano, o que torna qualquer deslize financeiro uma bola de neve.
Impacto no financiamento da casa própria
O FGTS não é apenas uma poupança para o trabalhador, mas a principal fonte de financiamento para habitação, saneamento e infraestrutura. Programas como o Minha Casa, Minha Vida dependem diretamente desses recursos. Desviar parte do fundo para pagar dívidas pode enfraquecer o financiamento imobiliário, como aponta Flávio Ataliba, pesquisador do FGV Ibre.
Luiz França, presidente da Associação Brasileira de Incorporadoras Imobiliárias (Abrainc), alerta que a medida pode prejudicar a construção de moradias e agravar o déficit habitacional do país. Segundo ele, o fundo foi criado com o propósito de gerar desenvolvimento social e tirar o recurso significa tirar a oportunidade da casa própria de muitas famílias.
As verdadeiras causas do problema
Para Fábio Gallo, professor da FGV-SP, a proposta é como “enxugar gelo”, pois trata o sintoma (a dívida) e não a doença. Ele aponta que a raiz do endividamento está no descontrole da economia brasileira, que gera inflação e força o Banco Central a manter a taxa de juros elevada como forma de controle. Essa combinação de inflação e juros altos torna o crédito caro e de difícil pagamento, criando um ciclo vicioso de dívidas para a população.
Por: Demais FM / Com informações de CNN Brasil
