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Santo Adalberto: da Boêmia à Linha Cerqueira, interior de Itaiópolis – uma história de fé que atravessa séculos.

Foto: Jamir Chimielewski.

Na paisagem tranquila do interior de Itaiópolis, em uma pequena comunidade chamada Linha Cerqueira, o tempo parece desacelerar uma vez por ano. Ali, moradores se reúnem com devoção para celebrar a Festa do Padroeiro Santo Adalberto, uma tradição centenária que carrega uma impressionante história de fé, resistência e raízes profundas que atravessam o oceano, chegando até a antiga Boêmia, na atual República Checa.

O mártir que veio do leste europeu

Santo Adalberto nasceu no ano de 956, em uma nobre família da região da Boêmia. Seu nome de batismo era Woytiech, que significa “socorro do exército”. Desde o início, sua vida foi marcada pela fé. Gravemente doente ainda bebê, seus pais fizeram uma promessa: se sobrevivesse, seria consagrado a Deus. Recuperado, Woytiech seguiu esse destino com determinação.

Formado sob a tutela do arcebispo Adalberto de Magdeburgo, adotou seu nome ao ser ordenado sacerdote em 983. Ainda no mesmo ano, assumiu a diocese de Praga após a morte do bispo local. Sua entrada na cidade, descalço em sinal de humildade, anunciava a coragem espiritual que marcaria sua trajetória. Lutou contra a corrupção, cuidou dos doentes, dividiu sua mesa com mendigos. Mas também enfrentou a resistência de um povo que ainda se mantinha distante dos valores cristãos. Por três vezes tentou liderar a diocese. Por três vezes foi rejeitado.

Refugiado na Polônia, aceitou a missão de evangelizar os pagãos da Prússia. Foi martirizado em 997, na cidade de Tenkiten, morto com sete golpes de lança e decapitado. Canonizado apenas dois anos depois, tornou-se símbolo de fé e evangelização no leste europeu. Seus restos mortais repousam hoje na Catedral de Praga, visitados por milhares, inclusive pelo papa João Paulo II, também de origem eslava.

A fé polonesa chega ao Brasil

Em meados de 1874, um casal de imigrantes poloneses desembarcou no Brasil. Durante a viagem, nasceu um menino: Alberto Selenko. Já adulto, casado com Augusta, Alberto decidiu deixar à sua família um legado espiritual que lembrasse suas origens. Com fé profunda e saudade da terra natal, teve a ideia de construir uma capela no interior de Itaiópolis, onde ainda não havia igreja. Pediu ajuda ao padre João Kominek, também polonês, para encontrar um santo que levasse seu nome. Não encontraram “Santo Alberto”, mas encontraram Santo Adalberto, cuja história e devoção imediatamente o tocaram.

Entre 1912 e 1915, com o apoio de vizinhos e amigos, a Capela dos Selenko foi erguida na localidade de Moema. Missas, festas e orações passaram a marcar o dia 23 de abril, data do martírio do santo. Com o tempo, o espaço se tornou pequeno para acolher os fiéis, e novas capelas surgiram na região, como a de Nossa Senhora das Graças e São Sebastião, em Moema.

A imagem que viajou de carroça

Na década de 1960, o então pároco sugeriu que a imagem de Santo Adalberto fosse doada a uma comunidade sem igreja. A escolhida foi Linha Cerqueira. Lá, uma antiga escola improvisada servia como capela. A história da mudança da imagem ganhou tons de epopeia: Felipe Maieski, morador da comunidade, e seu filho Geraldo Maieski, hoje com 74 anos, foram buscar a imagem com carroça. As estradas, na época quase intransitáveis, tornaram a jornada desafiadora. A imagem foi cuidadosamente envolta em acolchoados de penas e transportada por cerca de 15 quilômetros, até chegar à nova morada.

A comunidade de Linha Cerqueira abraçou a devoção e, com o tempo, construiu uma nova igreja. Desde então, a Festa de Santo Adalberto acontece anualmente, reunindo moradores, descendentes dos pioneiros e visitantes para um momento de oração, memória e celebração.

A história viva da fé

Essa bela trajetória foi resgatada por Jamir Chimielewski, tesoureiro da atual Capela de Santo Adalberto, a partir de conversas com dona Lídia Selenko Screpec e dona Frida Selenko Nilsen, netas de Alberto Selenko, além de seu Geraldo Maieski, testemunha viva daquele capítulo marcante.

Mais do que uma festa, a celebração de Santo Adalberto é uma aula viva de história e fé, mostrando como a devoção ultrapassa gerações, supera distâncias e fortalece comunidades. Uma herança que começou há mais de mil anos na Europa, atravessou o Atlântico e encontrou morada definitiva no coração do Planalto Norte catarinense, mais precisamente em Linha Cerqueira, interior de Itaiópolis.

Santo Adalberto, é um santo “exclusivo” no Brasil, e não se tem conhecimento de outra comunidade que tenha a imagem do mártir, a não ser, Linha Cerqueira em Itaiópolis.

Por Demais FM.

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