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Bebês Reborn e a linha tênue entre afeto, terapia e limite social.

Nos últimos dias, o Brasil se viu diante de um debate inusitado, mas que revela muito sobre os dilemas afetivos, sociais e até legislativos da atualidade: a febre dos bebês reborn. O que começou como um hobby para colecionadores ou uma ferramenta terapêutica em contextos específicos, como o luto ou a infertilidade, transformou-se em pauta política no Congresso Nacional e tema de intensas discussões públicas.

Na Câmara dos Deputados, três projetos de lei foram apresentados no mesmo dia, abordando o uso e os impactos sociais dos reborns. O deputado Delegado Paulo Bilynskyj (PL-SP) quer impedir que bonecas hiper-realistas recebam qualquer atendimento em unidades de saúde, argumentando que simulações de consultas médicas para objetos inanimados comprometem recursos e atenção destinados a pacientes reais. Já a deputada Rosângela Moro (União-SP) propõe justamente o oposto: acolhimento psicossocial no SUS para pessoas com vínculos afetivos intensos com os bonecos. Em outra frente, o deputado Dr. Zacharias Calil (União-GO) sugere multa para quem usar um bebê reborn para “furar fila” de atendimento prioritário, prática que, segundo ele, retarda cuidados urgentes a crianças reais.

O caso citado por Calil — o vídeo de uma adolescente de 17 anos levando seu reborn ao hospital público — serve como símbolo dessa polêmica: onde termina a liberdade individual e começa o uso indevido de serviços públicos?

Enquanto isso, a realidade se mistura com o surreal. Em Passo Fundo (RS), foi inaugurada a primeira clínica de partos para reborns, com ambiente hospitalar temático e equipe preparada para simulações do nascimento dessas bonecas. O realismo das cenas, muitas vezes transmitidas nas redes sociais, alimenta tanto o encanto quanto a estranheza. Em Curitiba, uma loja especializada em reborns virou alvo de ataques e discursos de ódio, após vídeos viralizarem mostrando mulheres adultas em “role play” com suas bonecas, simulando amamentação, troca de fraldas e passeios no parque.

Mas por trás do burburinho, há histórias humanas. A empresária Aline Lima, dona da loja atacada, desabafou: “Esses bebês são feitos com carinho e capricho, para trazer aconchego e boas memórias”. A mesma loja, vale lembrar, já teve parte do seu acervo roubado, somando prejuízo de R$ 55 mil.

Especialistas da psiquiatria tentam lançar luz sobre o fenômeno. Para o psiquiatra Jorge Jaber, os bebês reborn são, para algumas mulheres, formas de elaborar perdas ou vivenciar simbolicamente uma maternidade que não aconteceu. “Não é, por si só, sinal de transtorno mental. Só há motivo para preocupação quando o comportamento causa sofrimento ou prejudica a vida da pessoa”, explica. O psiquiatra Elson Asevedo, da Unifesp, concorda: a prática pode ser simbólica, mas não deve substituir relações reais.

O que inquieta, portanto, não é o uso dos bebês reborn como instrumentos de afeto ou enfrentamento emocional — o que, inclusive, pode ser terapêutico — mas sim o uso distorcido dessas práticas em espaços públicos, com impactos coletivos. Quando uma boneca ocupa um assento preferencial ou é levada ao pronto-socorro, o gesto passa do simbólico ao real, interferindo na logística e na ética dos serviços.

A ex-BBB Gracyanne Barbosa, ao exibir seu amor por “Benício”, seu bebê reborn, despertou um misto de curiosidade, empatia e julgamento. “Podem me julgar… Mas Benício me trouxe felicidade”, escreveu. Ela não está sozinha. São muitas as mulheres que enxergam nas bonecas um refúgio emocional legítimo. Mas também são muitos os que veem exagero, infantilização e, em casos extremos, fraude.

Imagine você, enfrentando boletos, desemprego, filas em hospitais e transporte público lotado… Enquanto isso, em uma sala de advocacia em Goiânia, uma mulher bate à porta com uma causa pra lá de inusitada: ela quer travar uma batalha judicial contra o ex-marido pela guarda, divisão de despesas e até administração de rede social de uma boneca reborn. Sim, uma boneca!

A advogada Suzana Ferreira mal acreditou quando ouviu. Ela revelou o caso em um vídeo que explodiu nas redes — já são quase 3 milhões de visualizações. E não é pra menos. A cliente afirma que tem “apego emocional” pela boneca e que ela e o ex “constituíram uma família” com o brinquedo. Segundo a mulher, houve até enxoval e perfil no Instagram para a “bebê”.

Mas peraí: boneca agora entra em partilha de bens? Vai ter pensão também?

A “mãe” da boneca quer que o ex-marido continue pagando metade dos custos com a reborn — que não chora, não come, não adoece, mas, ao que tudo indica, custa caro. Disse ainda que sofreu preconceito, pois a sociedade “não aceita o tipo de família” que ela formou.

A pergunta que fica é: estamos diante de uma nova era no Direito de Família ou de um completo absurdo jurídico? Enquanto gente de verdade sofre por falta de creche, remédio e dignidade, uma boneca vira centro de disputa em um processo real.

E você, o que pensa disso? A Justiça tem que dar atenção a um caso desses? Deveríamos parar tudo para resolver a guarda de uma boneca?

Como sociedade, talvez estejamos diante de uma nova fronteira simbólica entre o brincar e o existir, entre o real e o representado, entre o que é da esfera privada e o que impacta a coletividade. A resposta para essa questão não virá de julgamentos apressados, mas do equilíbrio: reconhecer o valor terapêutico do reborn para quem dele precisa, ao mesmo tempo em que se garante o bom uso de recursos públicos e se protege o direito de quem, de fato, está vivo — e vulnerável.

No fim, o debate não é sobre bonecas. É sobre afeto, saúde mental, empatia e responsabilidade. Como em tantas outras polêmicas modernas, talvez o maior desafio seja entender o outro antes de rotulá-lo. Afinal, todos estamos buscando, à nossa maneira, um pouco de acolhimento em um mundo cada vez mais fragmentado.

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