Porque aqui encontramos não apenas empresas de alcance global, mas também um desenvolvimento humano invejável, uma diversificação produtiva exemplar e um conjunto de valores que transcendem modismos passageiros.
Como, ao longo de décadas, nosso Estado tornou-se um polo de oportunidades que atrai a atenção do Brasil, da Europa, Estados Unidos, Ásia e de mercados internacionais, sem aderir a agendas artificiais ou narrativas desconectadas da realidade?
Observando atentamente essa trajetória e ao viajar por diversas regiões catarinenses, dialogando com empreendedores, agentes públicos e lideranças locais, percebo que não há segredos grandiosos, mas um conjunto coerente de princípios e ações.
Nossa história reflete uma herança cultural diversa e sólida – fruto das contribuições alemãs, italianas, portuguesas e de outros grupos migratórios – que moldou a ética do trabalho e a busca constante por qualidade.
Essa ética, por vezes, é transmitida em gestos simples e silenciosos, como o relato que ouvi de um diretor da minha empresa: quando criança, ele observava a mãe varrendo cuidadosamente a sujeira da calçada para dentro de casa. Intrigado, perguntou a razão daquele gesto, e a resposta foi direta e firme: “Porque é o certo a se fazer.” É essa mentalidade, enraizada no cotidiano, que sustenta a solidez moral e o senso de responsabilidade individual tão presentes por aqui.
Esse patrimônio imaterial criou um ambiente propício ao empreendedorismo, ao surgimento de lideranças empresariais e à formação de núcleos industriais e tecnológicos mesmo em cidades de pequeno e médio porte. Em Santa Catarina, não é raro encontrar municípios com poucas dezenas de milhares de habitantes exportando produtos para o mundo inteiro, alavancando empresas e obtendo reconhecimento global.
O que torna esse fenômeno particularmente singular é a distribuição equilibrada da riqueza e do desenvolvimento. Ao contrário de muitos Estados brasileiros, aqui a prosperidade não se concentra apenas na Capital ou em poucos centros urbanos. O interior – apoiado por sistemas de ensino regionais, como o robusto consórcio de universidades ligadas à Acafe – forma mão de obra qualificada e retém talentos, alimentando, em todos os cantos do Estado, um ciclo virtuoso de progresso.
A presença do “olho do dono” é um traço marcante: empresários acompanham de perto suas operações, conhecem as equipes, dialogam com as comunidades e, assim, constroem um ambiente de confiança mútua. Esse comprometimento pessoal, tão raro em outros contextos, assegura uma sintonia fina entre crescimento econômico, responsabilidade social e ambiental e respeito às tradições locais.
A solidez dos valores catarinenses se expressa também na forma como mantemos relações institucionais e preservamos a cultura. Investimentos consistentes em arte, dança, música, teatro e literatura criam um ecossistema cultural dinâmico, ancorado em eventos reconhecidos nacional e internacionalmente – a exemplo do Festival de Dança de Joinville e da única filial do Teatro Bolshoi fora da Rússia.
Esses são sinais de que o desenvolvimento não se restringe a indicadores econômicos; ele floresce no respeito às raízes, na valorização da criatividade e na promoção de experiências que vão além do trabalho e do lucro. Certamente não há desenvolvimento econômico sem cultura.
Outro fator determinante é o cooperativismo, que impulsiona a agroindústria e se compara, em organização e eficiência, aos padrões europeus. Santa Catarina, ao contrário de boa parte do Brasil, mantém um modelo de minifúndios – ou pequenos produtores rurais – preocupados com a saúde do solo, a qualidade do alimento e o bem-estar da própria família. São mais de 200 mil famílias reunidas em um sistema cooperativista de padrão internacional. Esse modelo assegura competitividade, qualidade e sustentabilidade, tornando nosso Estado um player global na produção de alimentos.
Além disso, a robustez das instituições públicas e privadas presentes em Santa Catarina – com seu espírito público e sua convergência de ideias e princípios – reforça o ambiente favorável ao crescimento. Temos referências nacionais em setores como educação, saúde e segurança, que ajudam a criar uma economia sólida, capaz de atingir indicadores sociais invejáveis. A coesão entre o poder público, a iniciativa privada e a sociedade civil não apenas fortalecem os alicerces institucionais, como também impulsiona soluções conjuntas e o desenvolvimento sustentável.
Soma-se a isso a presença marcante da nossa imprensa regional, com emissoras de rádio, televisão, jornais e portais digitais em praticamente todos os municípios. Essa comunicação capilarizada não só informa, mas conecta a população às pautas locais, reforçando a coesão social e dando voz às regiões mais remotas, tornando o debate público e econômico mais equilibrado e próximo da realidade de cada comunidade. São empresas, empresários, jornalistas, comunicadores, profissionais da comunicação comprometidos em informar bem a sociedade. E a sociedade bem informado passa a agir de forma cidadã.
É claro que há grandes desafios. A expansão econômica e populacional exige um planejamento de longo prazo em infraestrutura, saneamento, mobilidade, meio ambiente, saúde, educação e segurança. Não podemos permitir que o crescimento desordenado comprometa as conquistas alcançadas. A responsabilidade é compartilhada: cabe ao Poder Público garantir investimentos e políticas coerentes; à iniciativa privada, evitar a ganância de curto prazo e manter o foco no desenvolvimento sustentável; e à sociedade, preservar valores que assegurem harmonia entre tradição, modernidade e bem-estar social.
Santa Catarina ensina que é possível pensar globalmente sem perder a essência local. A projeção internacional não é fruto de retórica vazia, mas de uma prática diária guiada por trabalho sério, respeito institucional e conexões autênticas com o que realmente importa.
Este é o modelo de Santa Catarina que deu certo, e assim são os catarinenses. Ao contrário do que nos tentam imputar, não são conservadores, mas trabalhadores. Não se deixam pautar por ideologias de direita ou de esquerda, tampouco de conveniências de momento.
Não seguimos modismos ideológicos ou aderimos a “culturas” que diluem identidades. Ao contrário, reafirmamos constantemente nossas raízes para criar um futuro próspero, equilibrado e inspirador. É esse conjunto de fatores – cultural, econômico, social, moral e ético – que faz de Santa Catarina, com toda a relevância de seu percurso histórico, um exemplo de como se construir um espaço único para viver, investir e prosperar.
Escrito por:
Marcello Corrêa Petrelli
Empresário e presidente do Grupo ND
